Por que é
tão importante saber falar em público e por que
há tantas pessoas que têm tanta dificuldade
para fazê-lo?
Mario Persona - A comunicação sempre
foi importante, pois sem ela não teríamos a
civilização que temos hoje. Um dos grandes
diferenciais da raça humana é sua capacidade de
se comunicar, de articular seus pensamentos, de
transmitir idéias de forma ordenada. Cada vez
mais somos solicitados a falar em público, seja
em uma festa familiar, em uma reunião no
trabalho ou em um evento qualquer. Qualquer
pessoa deveria dominar essa técnica.
Obviamente ninguém precisa ser um palestrante
profissional para falar em público, e nem a
audiência espera isso da pessoa. Quanto maior
sua capacidade na profissão ou atividade que
você exerce, maior o desconto que sua audiência
dará para possíveis falhas em seu modo de
falar. Portanto, se você tem coisas importantes
para dizer, vá em frente e diga, sem se torturar
com a possibilidade de não ser 100% em sua
capacidade de oratória. Quando você põe isso
em mente deixa de fazer aquela cobrança
excessiva de si mesmo na hora de falar, e reduz o
estresse. Em suma, sua oratória até melhora
quando você não se estressa por causa de sua
oratória.
A dificuldade da maioria das pessoas está no
medo, mas ele não deve ser eliminado e sim
administrado e transformado em aliado. Quem fala
deve aprender a transformar a adrenalina,
liberada pelo medo, em energia e vigor para a
comunicação. Os atletas se superam quando
existe pressão, e não é diferente na atividade
de falar em público.
Uma boa técnica para se eliminar o medo é não
começar logo com o assunto, mas começar falando
de si mesmo, de sua família, de seu time de
futebol e outras amenidades. Essa técnica reduz
a tensão do orador e também permite que o
público o enxergue como um ser humano e passe a
relevar suas falhas.
Além disso, se você começar falando daquilo
que você está acostumado a falar, daquilo que
é capaz de falar até dormindo, irá evitar
aquele branco na memória que é o pavor de
qualquer um na hora de falar em público. Tudo
fica mais fácil quando você começa falando de
um assunto corriqueiro. Depois desse aquecimento
fica fácil fazer a transição para o assunto da
palestra.
Suas características naturais também podem
servir como uma moldura para o seu discurso. Se
você tem um perfil bem-humorado e costuma contar
piadas para os amigos, pode usar essa
característica, mas nem tente ser engraçado em
público se não for esse o seu modo de agir
naturalmente quando está entre amigos.
Como uma pessoa extremamente tímida, que
precisa se apresentar para garantir um emprego,
por exemplo, pode superar seus medos e se sentir
mais confiante?
Mario Persona - O que mais atrapalha é
o medo de se expor, de achar que as pessoas
estão reparando naquele fio de cabelo fora do
lugar, no gaguejar ou nas mãos trêmulas. Quem
fala tem uma percepção muito maior desses
detalhes do que sua audiência, que está
prestando atenção na mensagem. A mensagem, esta
sim, é o recheio de uma apresentação e deve
ser interessante o suficiente para atrair e
cativar a audiência.
Se a preocupação é com as falhas, o melhor
mesmo é que o seu público fique sabendo delas
logo de início. Se você falar de seus defeitos,
seu público não terá a chance de descobri-los,
portanto é você quem está no controle. Vale a
pena assistir o filme "8-Mile A Rua das
Ilusões" para ver como o cantor supera seus
medos ao se abrir diante do seu público. Quando
não temos mais nada para esconder, perdemos
aquele medo de que as pessoas percebam que exista
alguma coisa de errado conosco.
Quais são as principais técnicas e
dicas para uma boa apresentação em público?
Mario Persona - Analisar bem o público,
a ocasião, os objetivos. Quem fala em público
está ali como quem vai vender um produto, que
são suas idéias. Isso deve ser feito da maneira
que gerar uma maior satisfação para os
ouvintes.
Você pode também treinar diante de um espelho,
para analisar postura, expressões, timbre de
voz, articulação das palavras. Se puder gravar
ou filmar a si mesmo, o que hoje dá para fazer
até com um celular, você poderá analisar o
resultado, fazer correções e pedir críticas e
sugestões a algum amigo. Nos meus treinamentos
de comunicação verbal eu costumo pedir aos
participantes que venham à frente para falar
sobre algo enquanto são filmados e depois
analisamos juntos os resultados.
Há diversas dicas práticas que a pessoa que
fala em público pode conseguir com a ajuda de um
profissional ou lendo livros sobre o assunto. Uma
é trabalhar a entonação da voz e aprender a
fazer uso do silêncio para sublinhar suas
palavras. Outra é decidir se deve falar de
improviso, usar anotações ou slides, ou ainda
ler um texto corrido. Cada forma tem vantagens e
desvantagens.
Se você decidir ler um texto, nunca faça isso
segurando uma folha de papel na mão, pois ela
fatalmente irá denunciar qualquer tremor e
comprometer a segurança que a sua fala deveria
transmitir. Aconselho o uso de pequenos cartões,
que não revelam que as mãos estão tremendo.
Há fatores físicos que podem
comprometer ou colaborar com o desempenho da
pessoa?
Mario Persona - Sim, tudo pode acontecer
durante uma palestra. O uso de microfones e o
manuseio das apresentações no computador são
coisas que precisam ser treinadas de antemão,
para não correr o risco de ter problemas de som
ou perder minutos preciosos tentando entender o
equipamento. Microfones podem se transformar em
instrumentos de desastre, quando não são usados
da forma correta.
As falhas técnicas acabam desviando a atenção
do público, e o mesmo acontece com vícios de
linguagem, como o uso excessivo de expressões
como "ou seja", "sendo
assim", ou então sons como
"hããã", "né". Movimentos
estranhos com o corpo, com os pés e com as mãos
também são inimigos do orador por desviarem a
atenção.
Quem fala em público deve se imaginar na tela de
uma TV apresentando um telejornal. Isto implica
manter o público atento à sua boca e
expressões, e aos movimentos de suas mãos, que
devem ser mantidas dentro dessa "tela"
de TV imaginária. As mãos só devem enfatizar a
fala quando mantidas acima da cintura para não
desviar a atenção para muito longe do rosto do
orador.
Entrevista concedida para o site Bolsa
de Mulher em 28/04/2008.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas frases a título de
declarações do entrevistado. Para não perder o
que eu disse na hora, costumo gravar ou dar
entrevistas por escrito. A íntegra do que foi
falado você encontra aqui. Se achar que este
texto pode ajudar alguém, use o formulário
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