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ENTREVISTA
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A
Internet como ferramenta do RH
Uma pesquisa realizada junto a empresas
norte-americanas apontou que 44% dos empregadores
entrevistados consultam o perfil do candidato na
Web durante o processo de seleção (The Miami
Herald, Domingo, 10 de março). As empresas
brasileiras já utilizam a Internet como
ferramenta auxiliar ou mesmo determinante na
contratação de pessoas? De que forma isso
ocorre?
Mario Persona - Sim, muita gente já
utiliza a Internet para encontrar talentos e
também para entender um pouco mais do candidato.
Quando os blogs começaram a se popularizar, eu
pedia que cada aluno do curso de marketing numa
faculdade de administração e em um MBA onde
lecionava criassem um blog para publicar suas
idéias e os temas discutidos em classe. Alguns
não gostavam muito do trabalho adicional, mas
logo puderam ver os resultados.
Pelo menos dois alunos foram chamados para
entrevistas de emprego depois que seus blogs
foram encontrados pelo RH das empresas. Um
terceiro, aluno do MBA de gestão de empresas de
tecnologia de informação,
Outro aluno me escreveu recentemente agradecendo
pelo incentivo para criar seu blog quando
participava de minhas aulas em um MBA em 2004.
Ele mantém o blog ativo até hoje em
http://r.giovenardi.blog.uol.com.br/. Seu
trabalho de conclusão do MBA foi sobre o uso da
tecnologia de informação para espionagem e
contra-espionagem empresarial, e graças ao blog
ele foi encontrado por um jornal que o
entrevistou sobre o assunto. Hoje ele é
professor em uma universidade e reconhece a
importância de se criar uma imagem profissional
na Internet.
Mas não é apenas para procurar novos talentos
que esses espaços como blogs, Orkut, MySpace e
Facebook são utilizados hoje. Pesquisas de
mercado são feitas entre comunidades que se
reúnem em torno de um produto ou de uma marca
para saber das preferências dos participantes.
É muito mais fácil encontrar pessoas que são
contra ou a favor de algum produto quando elas
já estão reunidas numa comunidade do Orkut, por
exemplo.
Você acha que manter um currículo
atualizado em um site pessoal ou mesmo em canais
de relacionamento como o Orkut e MySpace, pode
diferenciar o candidato na corrida por um emprego
e abrir portas? Por que?
Mario Persona - Se o profissional for
inteligente, sim. Digo que isso é para os
inteligentes porque há muitos que participam
dessas comunidades com a intenção de mostrar o
pior de si, sem imaginar que, apesar de estarem
escrevendo da solidão e privacidade de seu
quarto, suas palavras estão sendo lidas por
centenas ou talvez milhares de pessoas.
Dependendo do tipo de serviço que utilizarem,
como fóruns de discussão, por exemplo, nem
sempre é possível excluir sua mensagem caso
você venha a se arrepender mais tarde. Anos
depois uma busca pelo nome da pessoa poderá
revelar o que ela disse naquele fórum de
discussão e acabar criando uma imagem negativa
para um empregador em potencial.
É importante que o profissional entenda o papel
dessas comunidades. Nem todas elas são
comunidades profissionais, onde se espera que as
pessoas exponham detalhes de seu currículo. A
maioria das comunidades que você encontra por
aí é formada por espaços informais, e a pior
coisa que alguém pode fazer é tentar participar
com uma imagem quadradinha de um currículo
convencional. O profissional precisa entender o
ambiente e "se vestir" de acordo com a
festa.
No seu caso, por que ter um site é
importante? Que tipo de retorno você tem depois
de investir tempo e recursos nessa ferramenta?
Já fechou parcerias e contratos importantes
através dele, por exemplo?
Mario Persona - Como iniciei na Internet
logo depois de sua chegada no Brasil, durante um
bom tempo procurei aprender sobre esse ambiente e
descobrir como tirar vantagem dele. Fui
descobrindo muita coisa sobre construção de
sites e comportamento das pessoas para criar
elementos de atração que pudessem gerar
negócios. Meu site profissional está no ar
desde 2001, que foi quando passei a trabalhar por
conta própria em consultoria, palestras e
treinamentos. Posso afirmar que 99% de meus
clientes chegam até mim através de meu site.
Ou seja, sem meu site eu não trabalharia, ou
seria obrigado a investir muito em propaganda,
contatos e visitas para conseguir algum negócio.
Hoje fiz um teste buscando pela palavra
"palestrante" no Google e meu site
apareceu em primeiro lugar em um universo de 734
mil páginas. Obviamente, como você mencionou,
isso não se consegue sem investimento de tempo e
recursos, mas acho que o pulo-do-gato está em
entender o comportamento humano, em criar os
elementos certos de atração.
Meu site profissional possui mais de 500 páginas
e apenas nos últimos 5 anos recebeu mais de um
milhão de visitantes que viram em média mais de
duas páginas cada um. A média diária é hoje
de quase 2 mil visitantes. Além do site e blog,
mantenho um boletim eletrônico enviado apenas
para assinantes. São 9 mil pessoas que recebem
periodicamente minhas crônicas falando de
negócios, carreira e marketing. Não envio spam
e não aconselho que se faça isso, porque os
servidores das empresas são equipados com
filtros que acabam bloqueando o recebimento de
spam e de qualquer mensagem vinda da mesma
origem.
Além disso também participo de algumas
comunidades de bate-papo para discutir assuntos
que me interessam. Lá as pessoas acabam
encontrando um perfil informal de minhas
atividades profissionais e já fechei uns três
ou quatro contratos graças a essas comunidades.
Na sua opinião, por que empresas do
Brasil inteiro ainda preferem avaliar a carreira
de um profissional com base no currículo
tradicional? Se a imagem e a reputação do
candidato são importantes no processo de
seleção, porque as organizações não se
preocupam em consultar a identidade que a pessoa
possui na Internet, que na maioria dos casos
inclui fotos, preferências, empregos anteriores
e experiência profissional?
Mario Persona - As empresas se sentem
mais seguras quando seguem um processo
convencional de solicitar currículos, embora
muitas hoje já façam suas pesquisas em sites
especializados em empregos. Mas, de um modo ou de
outro, as melhores oportunidades de contratar e
ser contratado continuam dependendo da velha e
boa indicação. Antes de partir para buscas
externas geralmente as empresas procuram
descobrir em sua equipe alguém habilitado para a
tarefa e que possa ser substituído por outro de
dentro ou de fora.
O próximo passo é pedir aos colaboradores a
indicação de amigos que queiram trabalhar. É
sempre mais seguro você contratar alguém
através de referências de outro que irá
dá-las com precisão, pois não quer se
comprometer indicando alguém que poderá
arruinar sua carreira. A grande maioria dos
empregos em todas as áreas acontece por este
processo.
Entendo que as comunidades de relacionamento,
sites e blogs possam ser utilizados para casos
mais específicos. Por exemplo, se preciso de
alguém especializado em segurança de dados, um
bom lugar é procurar por blogs de pessoas que
escrevem sobre o assunto.
Outro caminho é procurar comunidades de
profissionais que estão discutindo isso em
comunidades como o Orkut ou fóruns de
discussão. Basta alguma leitura para você
identificar quais são as pessoas que se
sobressaem nesses lugares, quais são os líderes
e até aqueles que têm dificuldade de
relacionamento, temperamento difícil e pavio
curto. Como bônus, você ainda descobre quem
consegue se comunicar e não faltou às aulas de
português.
Que cuidados o profissional precisa tomar
para não se expor demais na internet? Se ele
possui um site ou utiliza algum site de
relacionamento com objetivos profissionais, é
recomendável que ele divulgue fotos e vídeos
pessoais que possam denegrir a sua imagem diante
do empregador?
Mario Persona - Costumo dizer aos
profissionais de RH que não devem acreditar nos
perfis das pessoas nesses sites de
relacionamento, porque quando a pessoa fala de
si, obviamente ela só fala bem. Já reparou que
esses sites de relacionamento só têm pessoas
maravilhosas?
O que o profissional de RH ou responsável pela
seleção de um profissional deve procurar nesses
espaços são as ligações do candidato. Ainda
que um candidato a uma vaga tenha vindo até a
empresa pelos meios convencionais, enviando seu
currículo em um envelope pardo, vale a pena
descobrir se ele está no Orkut e ir lá olhar
suas ligações.
Vi na área de fotos de uma ex-aluna várias
fotos nas quais ela posava ao lado de pilhas de
latas e garrafas vazias para deixar claro ao
mundo que ela bebe todas. Seu currículo pode ser
impecável, mas as fotos denunciam seu
comportamento, e uma empresa não irá querer
correr riscos tendo de antemão uma informação
assim.
Em um site como o Orkut, as comunidades das quais
o candidato faz parte podem dizer muita coisa a
seu respeito. Em seu perfil ele pode dizer coisas
maravilhosas, porém participar de comunidades
que incitam a violência, o racismo, a pedofilia
e coisas do tipo. Há um ditado que diz que
"pássaros de mesma plumagem voam
juntos". Até sua relação de amigos pode
dar pistas sobre seu comportamento, pelo perfil
dos outros. Por isso o profissional deve ter
muito cuidado quando entra nessas comunidades,
pois está deixando pistas e pegadas que poderão
arruinar sua carreira.
Quais são as informações que
interessam às empresas no momento da escolha do
profissional? O que elas precisam saber antes de
contratar alguém e o que o candidato pode
acrescentar para fazer seu marketing pessoal?
Mario Persona - O candidato deve
raciocinar como a empresa raciocina. Embora a
empresa busque por pessoas dispostas a aprender,
ela não vai contratar um casco vazio, porque sua
função não é educar. Para isso existem
escolas. Portanto, aquele profissional que não
sabe coisa alguma e se apresenta como alguém que
deseja aprender provavelmente será visto como um
péssimo investimento para a empresa,
principalmente numa época de grande rotatividade
no emprego. Ele vai entrar, aprender, e sair.
Se o candidato fosse dono da empresa, o que
esperaria? Alguém que tivesse algo a agregar à
empresa e ajudá-la a ganhar dinheiro, agilizar
seus processos, torná-la mais conhecida, elevar
seu padrão no mercado e coisas do tipo. O
candidato precisa se vender assim, mostrando os
benefícios que pode agregar ao seu empregador.
Para isso ele deve estar bem ciente do segmento
onde pretende atuar para mostrar o quanto conhece
esse segmento. Na hora de enviar um currículo ou
proposta de trabalho, deve procurar adequá-la ao
perfil e necessidade de cada empresa, ao invés
de tirar mil cópias de um mesmo e igual
currículo.
Finalmente, numa época em que se dá tanta
importância a questões como saúde,
meio-ambiente, ética, segurança e
responsabilidade social, aparecer numa foto ao
lado de uma pilha de garrafas vazias
definitivamente não é a melhor estratégia para
se criar uma imagem atraente para o mercado de
trabalho. A menos que você seja bom em
malabarismos com garrafas e procure uma vaga de
freestyle bartender. Mas aí já não estamos
falando de um perfil etílico, e sim de alguém
com talento e disposto a trabalhar numa carreira
para a qual existem até cursos
profissionalizantes.
Entrevista concedida à
Jornal A Crítica em 16/04/2008 para uma
matéria sobre o uso da internet como ferramenta
do RH.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas frases a título de
declarações do entrevistado. Para não perder o
que eu disse na hora, costumo gravar ou dar
entrevistas por escrito. A íntegra do que foi
falado você encontra aqui.
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Veja em www.mariopersona.com.br
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