Fui
entrevistado pelo jornal A Crítica de
Manaus para uma matéria com o título
"Liberdade para Criar". A
íntegra da entrevista você encontra
aqui:
Jornal A
Crítica: Quando a criatividade é importante
profissionalmente?
Mario Persona: Eu diria que, na
velocidade como as coisas mudam hoje no mercado,
criatividade é vital para a sobrevivência
profissional. A pessoa que sai da faculdade entra
no mercado carregando informações que podem nem
valer mais, portanto ela terá de se atualizar
continuamente e ser criativa para encontrar
soluções para preencher as lacunas da falta de
conhecimento do novo. Para ser criativo é
preciso saber encontrar infinitas maneiras de
realizar algo usando recursos finitos. Para o
criativo sempre existe uma outra maneira de se
fazer a mesma coisa, e ele não se dá por
satisfeito enquanto não encontrá-la. O criativo
não se acomoda.
A criatividade costuma diminuir à medida que os
anos passam. Aos 12 anos Beethoven compunha
sinfonias inteiras. Michelangelo tinha 29 anos
quando terminou de esculpir Davi, uma de suas
melhores obras e Noel Rosa já tinha uma obra
significativa quando morreu aos 27 anos. A lista
é imensa. Blaise Pascal inventou uma máquina de
calcular aos 19 anos, Benjamin Franklin já
escrevia para um jornal aos 15, mesma idade em
que Thomas Alva Edison publicava seu próprio
jornal e Louis Braille desenvolveu o código que
levou seu nome.
A Crítica: E para quem não é muito
criativo, existe alguma forma de estimular essa
característica?
Mario Persona: A criatividade envolve
usar o cérebro de maneira diferente, fazendo as
informações percorrerem caminhos não usuais.
É claro que esta é uma explicação simplista,
mas um bom exemplo para entendê-la é pensar no
caminho que você faz de casa para o trabalho. Se
fizer sempre o mesmo caminho, logo seu cérebro
vai criar um padrão para gastar menos energia e
você não pensará mais no caminho, só em
outras coisas. O caminho será algo automático.
Só que, com isso, você também perderá a
oportunidade de observar detalhes do caminho que
não observou da primeira vez, porque eles já
não chamarão sua atenção. Ao fazer um caminho
novo, você perceberá muitos detalhes
interessantes porque ainda não existe um padrão
de pensamento para aquela rota.
Pense na infância e em como os dias pareciam
muito mais longos do que hoje são. É que o
cérebro ainda estava virgem e tudo significava
uma nova descoberta. No final do dia você tinha
feito ou descoberto tantas coisas novas, que seu
dia parecia extremamente longo. Com a idade, o
cérebro vai criando padrões para economizar
energia e você não observa mais seu ambiente,
isto é, seu cérebro lhe diz que não precisa
perder tempo porque não há mais nada para
aprender. Aí é hora de fazer outro caminho, ler
outro livro, ouvir outra música, e até usar o
mouse com a outra mão para experimentar novas
sensações. Só assim a criatividade é
estimulada.
José de Alencar enxergou "Iracema" na
palavra "América" quando escreveu o
romance de uma típica índia do novo continente.
Poucos já perceberam que existe, em América, as
mesmas letras de Iracema. Isso é criatividade,
é enxergar algo padronizado pelo cérebro de uma
maneira diferente.
A Crítica: Como isso pode ser aplicado a
uma empresa?
Mario Persona: A criatividade costuma se
desenvolver melhor em ambientes pouco
organizados, onde ainda existam coisas a serem
feitas e onde a pressão por padrões não seja
muito grande. Estudo feito nos EUA revelou que as
empresas com maior índice de inovação estão
localizadas em cidades onde existe também um
clima mais boêmio. Ainda que não sejam as
mesmas pessoas que participam da boemia que
inovam nas empresas, aparentemente o ambiente
artístico e mais tolerante dessas cidades cria
uma atração sobre empreendedores das áreas de
novas tecnologias que também vivem nos limites
dos padrões estabelecidos e ousam estabelecer
novos padrões.
Um bloqueio à criatividade é acreditar que só
existe uma resposta certa para um problema. Outro
é achar que a resposta ou solução precise ser
lógica e racional, quando muitas coisas só
foram realmente entendidas depois de terem sido
criadas. Até hoje não se compreende
completamente a força da gravidade, mas nós a
utilizamos em muitos projetos e até nos
esportes. A obrigatoriedade de se obedecer regras
também é outro empecilho à criatividade, pois
impede que se pense fora da caixa ou que se
enxergue as coisas de outro ângulo.
A Crítica: Mas isso não leva a pessoa a
devaneios e a perder o foco?
Mario Persona: Pode ser, porém a idéia
de que uma coisa para poder existir tem que ser
possível de ser colocada em prática impede o
surgimento de grandes idéias. Muito da
tecnologia que temos hoje foi inventada por
escritores de ficção científica do passado,
que não se preocuparam com o que os outros iriam
pensar de eles estarem descrevendo viagens à
Lua, submarinos, foguetes, computadores e coisas
que só anos depois foram possíveis de serem
colocadas em prática. O medo de correr riscos é
outro impedimento à criatividade.
Outra forma de se estimular a criatividade é por
associação, e também está relacionada à
idéia de se "fazer outro caminho". Por
exemplo, o inventor da máquina à vapor associou
uma chaleira à roda. Henry Ford inventou a linha
de montagem depois de visitar uma "linha de
desmontagem" de bois em um matadouro, onde
os açougueiros ficavam parados e o boi se movia
pendurado em um gancho para que cada um tirasse
apenas um corte da carne. O inventor do Reebok
com sola amortecedora teve a idéia enquanto
brincava com uma ampola vazia de soro
fisiológico ao visitar um amigo no hospital.
A Crítica: Pessoas criativas possuem
diferencial perante outros profissionais?
Mario Persona: Sim, geralmente são
pessoas bastante disputadas no mercado, quando
são empresas inovadoras que as buscam. Mas nem
todas as empresas gostam de inovação, por medo
de perder mercado ou investir naquilo que ainda
não está totalmente comprovado como viável.
Então você sempre terá oportunidades para
pessoas criativas e para pessoas sem
criatividade, mas obviamente serão as primeiras
que crescerão mais rápido. Pessoas criativas
geralmente não permanecem em empresas pouco
inovadoras ou, quando permanecem, acabam tendo
uma ocupação paralela, que pode ser um hobby ou
outra atividade na qual possam dar vazão à sua
criatividade.
A Crítica: Existe algumas profissões ou
áreas de trabalho onde a criatividade é
essencial?
Mario Persona: É claro que há
profissões que devem ser 100% criatividade
colocada em prática, como é o caso de
inventores, publicitários, escritores e atores.
Outras são mais rotineiras, mas nelas os
criativos também se revelam quando encontram uma
maneira melhor de executar uma rotina. Um
programa de computador nada mais é do que uma
série de rotinas em uma seqüência lógica, mas
veja como os programas evoluíram em poucos anos.
Sempre aparece alguém com uma idéia melhor para
aquela mesma rotina.
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