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Marca
pessoal e imagem Você acredita que as
pessoas julgam umas às outras o tempo todo?
Mario Persona - Sim, esta é uma
característica humana. Na verdade o objetivo
desse julgamento é nos comparar a alguém até
como forma de nos situarmos no contexto. Se você
vai a uma festa observa logo como as outras
pessoas estão vestidas para saber se acertou no
modo como você mesma se vestiu. O outro é nosso
espelho, nosso padrão ou referencial. A reação
a esse julgamento pode variar. Tanto posso me
considerar sempre um lixo ao fazer essa
comparação, como posso também ter a tendência
de sempre considerar as outras pessoas um lixo
como forma de me sentir bem. É como se eu me
sentisse bem sempre que encontrasse algum defeito
em alguém para sair ganhando na comparação.
A primeira impressão é a que fica?
Mario Persona - Sim, mas pode ser
mudada. Por causa dessa necessidade que temos de
avaliar alguém que acabamos de conhecer, a
primeira impressão é logo adotada como o
referencial a partir do qual iremos construir
nossa opinião sobre a pessoa. A primeira
impressão costuma ser equivocada, mas isso pode
ocorrer tanto por culpa do observado como do
observador. É claro que o melhor mesmo é sempre
saber administrar essa primeira impressão para
que a imagem que os outros façam de nós
trabalhe a nosso favor, mas nem sempre isso é
possível por causa do preconceito, um sentimento
que pode ser encontrado em todo ser humano.
Uma pessoa que saiba administrar bem sua imagem
aprenderá que nem sempre uma primeira impressão
que seja nota dez será a melhor. Dependendo de
sua profissão ou do impacto que deseja causar
nas pessoas, uma primeira impressão que seja
positiva poderá jogar você na vala coletiva do
lugar comum. Se os estilistas quisessem sempre
causar uma boa primeira impressão, há anos não
teríamos nada de novo em termos de moda. Eles
trabalham com uma ousadia calculada para causar
uma certa desestabilização na primeira
impressão e interferir até mesmo no modo como
as pessoas constroem sua percepção.
Saber o que pensam da gente é importante
para alavancar a vida profissional e pessoal?
Como perceber e usar essa informação?
Mario Persona - Sim, sempre levando em
consideração a necessidade dessa consciência
do tipo de impacto que você deseja causar, isto
é, se quer criar uma impressão de alguém
dentro dos padrões usuais, ou se quer andar nos
limites ou até mesmo ultrapassá-los. Como
estamos sempre propensos a acreditar que nosso
julgamento é o que importa, erramos muito nesse
sentido. Ou desaparecemos na multidão por não
trazermos em nós qualquer diferencial, ou
saímos tanto do usual que acabamos rejeitados
por excesso de inovação. Muitos produtos se
transformam em verdadeiros desastres por estarem
muito além do seu tempo, e o mesmo pode
acontecer com pessoas.
A palavra de ordem é empatia, procurar se sentir
como o outro se sentiria se visse nossa
configuração pessoal e profissional. Quando
pretendo ingressar numa empresa devo procurar
conhecer bem a empresa, as pessoas, seus
clientes, a imagem que a empresa quer passar e os
clientes desejam perceber. Posso ter uma certa
dose de audácia ao construir a imagem que desejo
que tenham de mim, mas não posso me esquecer de
que aquelas pessoas já possuem alguns
parâmetros e podem me rejeitar caso eu esteja
muito fora deles. Eu sei que muitas pessoas não
estão nem aí com o que os outros podem pensar,
mas se estamos falando aqui de sucesso
profissional é preciso levar sim em
consideração o que os outros pensam, ou não
seremos comprados pelo mercado.
O cineasta americano Woody Allen disse
certa vez que oitenta por cento do êxito
consiste em aparecer... A vida é uma
autopromoção? Como fazer isso bem feito?
Mario Persona - Eu tomaria a liberdade
de parafrasear Woody Allen para acrescentar que
oitenta por cento do fracasso também consiste em
aparecer. Suponha que você seja uma cerveja que
acaba de ser fabricada para ser lançada no
mercado. Sua fórmula ainda não está
aperfeiçoada, você causa dor de cabeça e
ressaca, e até mesmo sua embalagem foi mal
calculada e amassa com facilidade. Fazer você
aparecer neste momento será um desastre. Quanto
menos gente ficar sabendo que você existe,
melhor. Se fizer publicidade agora, muita gente
irá conhecer esses defeitos e depois ficará
difícil reverter a péssima imagem que deixou no
mercado.
Primeiro você precisa se aperfeiçoar, melhorar
seu conteúdo antes de pensar em imprimir a
percepção errada na mente das pessoas. Aos
poucos você pode ir criando alguns momentos de
degustação para medir a reação das pessoas ao
sabor que você causa na percepção delas. É
claro que você pode até querer alardear essa
versão incompleta de você, mas é bom saber que
estará pronta apenas para uma parcela de seu
público, justamente aquela que é tão amarga e
intragável quanto você é neste momento antes
de aperfeiçoar a fórmula. Se for essa parcela
que você deseja atender, então vá em frente.
Todos sabemos que o mau gosto também tem seu
público fiel, mas isso ocorre só até esse
público ficar mais sofisticado e buscar por algo
melhor.
Portanto, antes de ficar conhecida é melhor
você ter algo que valha a pena as pessoas
conhecerem; é melhor ter recheio, ter sabor, ter
um algo mais para não ser apenas mais uma
perdida na multidão ou, o que é pior, conhecida
como sendo de péssima qualidade. Mas, mesmo
quando atingir esse estágio, é preciso tomar
muito cuidado com a idéia da autopromoção. Se
fica bem para uma cerveja dizer de si mesma que
é a melhor do mundo, o mesmo não vale para uma
pessoa, pois costumamos rejeitar a
autopromoção, a menos que também façamos
parte dessa parcela de público pouco
sofisticada. O normal é que pessoas que falam de
si mesmas mais do que convém falar sejam
rejeitadas como soberbas, egocêntricas, metidas
e tantos outros adjetivos.
A dificuldade que a maioria das pessoas tem em
perceber isso é porque costumam ver alguma
estrela de quinta grandeza fazer isso na TV,
porém se esquecem de que ela percorreu um longo
caminho antes de poder fazer qualquer coisa sem
causar uma má impressão em seus fãs. Se não
for o seu caso, se você ainda não tiver seu fã
clube, é melhor começar por baixo, devagar, e
evitar a autopromoção.
A melhor promoção é a que as outras pessoas
fazem de você, e não você de si mesma. Vamos
voltar à cerveja e imaginá-la agora ocupando
uma propaganda de página inteira no jornal. Na
página oposta há uma pequena nota escrita por
um jornalista especializado em cervejas falando
da concorrente. Em quem você acha que as pessoas
vão acreditar, na propaganda de página inteira
comprada ou na opinião do especialista, ainda
que tenha sido publicada numa pequena nota de
dois centímetros?
Mas como fazer para criar essa aura que
estimule outros a fazerem essa promoção de
você?
Mario Persona - Dando a essas pessoas
algum benefício que as deixe tão satisfeitas
que tenham prazer de falar de suas qualidades.
Essa, sim, é a melhor promoção, especialmente
na esfera profissional. É comum ouvirmos falar
em agregar valor quando o assunto é um produto
ou serviço. O mesmo vale para pessoas. Veja que
o valor agregado não é algo que irá beneficiar
o produto ou serviço, mas sim as pessoas que
entrarem em contato com ele. O valor é agregado
ao produto para trazer benefício às pessoas. Se
você quiser ficar conhecida, deve ter algum
valor e esse valor ser traduzido em benefício
para as pessoas ou empresas com as quais entrar
em contato.
Pode acontecer, por exemplo, da pessoa se
considerar sincera, achando que isso é uma
grande qualidade, e os outros a considerarem
extremamente crítica?
Mario Persona - Muita gente acha que a
sinceridade seja justificativa para a ofensa. Eu
não preciso ser sincero no sentido de falar
sobre a feiúra de uma pessoa feia. O melhor é
evitar o assunto ou procurar alguma qualidade que
vá além da mera aparência. É bom sempre usar
o exemplo de algum produto para entender como
agir em relação aos outros. A propaganda de um
produto de beleza não tentará realçar a
feiúra do cliente que pretende atingir, mas irá
se concentrar na beleza que irá promover. A
sinceridade deve sempre procurar o caminho
positivo ou, pelo menos, evitar ser servida sem
qualquer tempero que amenize sua acidez.
Curiosamente, hoje estava procurando uma receita
de salmão com molho de maracujá para minha
cozinheira e percebi que algumas receitas
sugeriam adicionar mel ou açúcar para quebrar a
acidez da fruta. Este conselho vale também na
hora de usar de sinceridade.
Em meus treinamentos de marketing pessoal costumo
mostrar uma cena do filme Do que as
mulheres gostam, quando a personagem
protagonizada por Helen Hunt chega ao seu novo
emprego. Reunidos numa sala estão todos os
funcionários da agência de propaganda, odiando
a chegada de uma contratada de fora. Sua
contratação impedia que o personagem de Mel
Gibson fosse promovido e puxasse atrás de si
outras promoções de pessoas da própria
agência. Ela não chega criticando, mas
elogiando a empresa e zombando de sua própria
capacidade de conseguir emprego ali nas duas
vezes que havia tentado no passado. É só depois
desse preâmbulo e de mostrar competência que
ela diz que se uma empresa de produtos femininos
quisesse promover algum produto para a mulher,
aquela agência seria a última que iria
procurar.
Podemos dizer que nossa imagem vai e
volta? Por isso é importante prestar atenção
nas reações que nossa presença e atitudes
provocam? Se são de alegria, interesse,
confiança, negativas...
Mario Persona - Assim como empresas de
produtos fazem constantemente pesquisas de
mercado, uma pessoa precisa ter essa percepção
do feedback que as pessoas dão de sua imagem,
seu modo de ser, sua capacidade profissional ou
qualquer outra característica de sua pessoa. Mas
para isso é preciso uma boa capacidade de ouvir
o que os outros têm a dizer, e o problema é que
nem sempre gostamos de opiniões negativas. A
melhor maneira de superar isso é considerar os
outros como consultores gratuitos.
Uma empresa contrata um consultor para analisar
seus processos, suas pessoas ou seus produtos e
fazer um diagnóstico para, a partir dele,
sugerir melhorias. Se desprezarmos o diagnóstico
que as pessoas fazem de nós, como saber o que
melhorar? É preciso aí uma certa dose de
humildade para acatar críticas e também
disposição para mudar aquilo que está
claramente prejudicando nossa imagem no mercado
que pretendemos atuar como profissionais, ou até
mesmo no círculo de pessoas com as queremos
conviver.
Que dicas você daria para as pessoas
criarem uma boa imagem e marca pessoal quando
utilizam a Internet e a comunicação de modo
geral?
Mario Persona - Todo profissional deve
ter um site pessoal ou blog que possa ser seu
endereço virtual. Antigamente você tinha suas
informações em um cartão de visitas ou
currículo de papel, mas hoje é possível ter
seu currículo começando com www. Outros canais,
como Orkut, Facebook, Twitter etc. irão
complementar isso. Criatividade é a palavra de
ordem, tanto para você aparecer em seu site
pessoal como nas redes sociais. Nestas também
vale pensar em valor agregado, ou seja, naquilo
que você pode acrescentar de benefício às
pessoas que se conectarem a você.
Quando o assunto é a comunicação pessoal, há
pessoas que são deliciosas quando começam a
falar de sua vida pessoal, simplesmente porque
têm uma vida tão interessante e rica que
qualquer um aprende e se deleita com isso. Mas
ficar ouvindo alguém falando de si mesma e se
gabando do que é ou faz nem sempre é
agradável. O melhor mesmo é conseguir
transformar qualquer coisa a respeito de si mesma
em uma história, porque histórias são
interessantes. Ao invés de falar de minhas
manias, é muito mais interessante criar um
contexto lembrando algum caso pitoresco quando
essas manias vieram à tona.
É importante lembrar que o humor é o tempero da
comunicação, mas aí é preciso um certo
cuidado, pois o humor sempre implica na
existência de uma vítima. Rimos da pessoa que
levou uma torta na cara, ou de alguém que se
comportou como um idiota, ou da roupa ridícula
que a outra está vestindo. Mas o melhor humor é
aquele que nos coloca como essa vítima, ou que
faz de mim e de meus interlocutores a vítima.
Costumo começar minhas palestras com algum caso
pitoresco em que me dei mal numa situação
engraçada, porque sei que isso reduz a
rejeição que as pessoas possam do palestrante.
Entrevista concedida à Revista
Women's Health em 21/07/2009.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas frases a título de
declarações do entrevistado. Para não perder o
que eu disse na hora da entrevista, costumo
gravar ou dar entrevistas por escrito. A íntegra
do que foi falado você encontra aqui. Se achar
que este texto pode ajudar alguém, use o
formulário abaixo para compartilhar.
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Veja em www.mariopersona.com.br
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