Fui entrevistado pela Rádio
UNI-FACEF do Centro Universitário de Franca para
uma matéria em seu podcast sobre o futuro do
rádio. A íntegra da entrevista você encontra
aqui.
P. O
que você espera de uma rádio?
Mario Persona - A mídia rádio tem
uma particularidade que garante sua
sobrevivência por muito tempo. Ao contrário do
vídeo ou do texto, o áudio permite que você
desfrute de um programa sem precisar parar o que
está fazendo. É impossível alguém dirigir e
ler ou ver TV ao mesmo tempo, mas é
perfeitamente possível fazer isso ouvindo
rádio.
Outra grande vantagem é a portabilidade que
existe hoje no rádio. Com a possibilidade do
podcast, eu posso levar meus programas preferidos
para qualquer lugar sem me preocupar com o
alcance das ondas. Há alguns meses troquei o
toca-CD de meu carro por um toca-MP3 e uso
cartões de memória para levar para minhas
viagens de carro aquilo que gosto de ouvir.
Geralmente são palestras, gente falando, porque
isso me interessa bastante.
Nos Estados Unidos um tipo de programa muito
popular são os talk-shows, programas de
comentários e entrevistas. Aqui isso ainda não
é muito popular, a menos que a gente considere
talk-show os programas populares de locutores que
ficam conversando sobre o signo do ouvinte, seu
cantor predileto e coisas do tipo. Mas o
talk-show que falta aqui é o do comentarista de
assuntos sérios ou de entrevistas interessantes.
P. É preciso de uma concessão para
"irradiar", AMs ou FMs. Educativas,
comunitarias e comerciais. Hoje além desses
modelos, temos a integração com web-radios,
satelites, blogs, podcasts, entre outros. Como
agir em meio a essa convergência?
Mario Persona - As rádios que vão
para a Internet precisam mostrar algo mais. Não
basta ser musical, porque a Internet está cheia
de músicas e é possível você criar sua
própria seleção em alguns sites que oferecem
este serviço. Estou falando de rádios que
fornecem algo além de ser uma mera plataforma de
música, como se fosse um antigo LP de infinitas
faixas.
Talvez as rádios precisariam focar mais em
servirem de provedoras de conteúdo diferenciado
, permitindo a um blogueiro mesclá-lo com sua
própria produção e participar dos ganhos de
propaganda, como já faz o Youtube com os
vídeos. Este é um modelo no qual as gravadoras
deveriam investir também, ao invés de
acreditarem que suas músicas deixarão de ser
tocadas de maneira pirata.
A velha ideia da concessão para ter uma rádio
funcionando acabou perdendo o sentido com a Web e
mais recentemente com a tecnologia wireless. Um
receptor de rádio já não depende das ondas de
uma rádio convencional para funcionar. Ele pode
receber o som digital via outros meios wireless,
portanto a discussão sobre concessões se
esvazia. É claro que as parcelas mais pobres da
população continuarão a sintonizar seus
receptores em programas de ondas médias, curtas
ou FM, mas cada vez tem mais gente ingressando
nas novas tecnologias.
Outro modelo que também coloca as rádios
convencionais em pé de igualdade com as rádios
puramente Web é a tecnologia streaming. Muitos
DJs já perceberam que agora não precisam ser
apenas uma voz invisível, mas podem estrelar
seus próprios programas em vídeo ao vivo. Basta
terem uma câmera no estúdio e um computador
conectado a algum serviço de vídeo streaming
como o Ustream, Stickam, Livestream, Veetle e
Justin.
P. Falando agora em cultura
organizacional, como difundir os valores
essenciais de uma empresa para os clientes e
colaboradores com uma rádio indoor ou rádio
corporativa?
Mario Persona - Isso depende muito
da empresa, do perfil de seus colaboradores e dos
objetivos que a empresa pretende atingir. O
melhor em casos assim é contratar uma assessoria
de comunicação com experiência nas novas
mídias para trabalhar em conjunto com a área de
recursos humanos e comunicação interna da
empresa.
Não é uma tarefa simples porque comunicação
não é simples. É preciso um plano detalhado
para determinar quando e como os colaboradores
irão ouvir a rádio, e qual o melhor conteúdo.
Ficar fazendo propaganda da empresa para os
colaboradores não vai funcionar. Transmitir algo
que possa interferir na produtividade também
não.
Um projeto interessante que conheci foi de uma
agência de comunicação que criou uma rádio
boleia para uma transportadora. O problema da
empresa era conseguir treinar e conversar com os
motoristas sem fazê-los parar na sede da empresa
e perder horas preciosas de trabalho nas
estradas. Então criaram uma rádio em CDs que os
motoristas retiravam na empresa antes de viajarem
e podiam ouvir pelo caminho.
Não era nada maçante, mas uma mescla
interessante de música, bate-papo e curiosidades
que deixavam o motorista interessado o tempo
todo, enquanto aprendia conceitos e técnicas
importantes para o seu trabalho. Sempre que uma
empresa cria uma rádio corporativa deve entender
que estará competindo pela atenção de seus
colaboradores com todas as outras formas de
atração que ele pode encontrar, seja nas
mídias tradicionais, seja na Internet.
P. Falando em convergência e
comunicação, como podemos visualizar um
"cenário" para daqui uns 10 anos?
Mario Persona - Se você me
perguntasse há dez anos onde estaríamos hoje,
eu não saberia responder. Há dez anos não
existia Twitter, Youtube, Facebook e o Google era
um nome ainda desconhecido para a maioria das
pessoas que faziam suas buscas em sites como o
Altavista, Cadê e Yahoo.
A resposta mais honesta que posso dar sobre como
estaremos em dez anos é que realmente não sei.
Mas pode apostar que muito do que hoje fazemos em
um computador convencional será feito por meio
de algo conectado à nuvem, onde ficarão
armazenados os programas e os dados.
Entrevista concedida à Rádio
Uni-FACEF em 23/08/2010.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas frases a título de
declarações do entrevistado. Para não perder o
que eu disse na hora da entrevista, costumo
gravar ou dar entrevistas por escrito. A íntegra
do que foi falado você encontra aqui. Se achar
que este texto pode ajudar alguém, use o
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