Fui entrevistado pela
Revista Rodobens Consórcio para uma matéria
sobre como detectar e aproveitar oportunidades de
transição de carreira. A íntegra da entrevista
você encontra aqui.
P.
Como enxergar a mudança como oportunidade dentro
de uma empresa ou numa parceria de negócios e se
destacar?
Mario Persona - A mudança deve ser
sempre vista como a mola propulsora da
criatividade e inovação. Quando olhamos para a
história da humanidade, vemos que as grandes
mudanças ocorreram justamente nos momentos de
crise, como nas guerras. A tecnologia evoluiu,
novos medicamentos foram descobertos e até mesmo
o mapa do mundo foi redesenhado quando nações
entraram em conflito.
Isto não quer dizer que as guerras sejam boas,
mas é inevitável perceber que quando somos
colocados sob pressão procuramos fazer mais com
menos e sempre descobrimos maneiras de inovar. As
empresas antigamente mudavam pouco porque havia
uma pressão menor do mercado e da concorrência.
Hoje o mercado é muito dinâmico e isso força a
empresa a acompanhar o ritmo para não sucumbir.
Mudanças internas também geram oportunidades,
porque elas tiram as pessoas da zona de conforto
e realocam os talentos. Muitas inovações dentro
de uma empresa ocorrem quando pessoas diferentes
se encontram e juntam suas ideias, porém isso é
mais difícil de acontecer se não existir uma
certa dose de mobilidade interna e uma boa
comunicação entre pessoas e departamentos.
O mesmo princípio vale para sociedades e
parcerias de negócios, quando diferentes
recursos se encontram para criar algo maior.
Costumamos chamar a isso de sinergia, que é
quando o todo acaba sendo maior do que a soma das
partes.
P. Quais as dicas para que o
colaborador/parceiro sinta-se motivado mesmo
durante o período de transição?
Mario Persona - O colaborador deve
enxergar esses momentos de mudança e transição
como oportunidades, tanto de descobrir novas
capacidades em si mesmo, como de encontrar ideias
em colegas. O profissional de hoje deve ser
flexível, maleável, capaz de ser espremido e
suportar a pressão, saindo dela enriquecido e
não destruído. Assim como acontece com os
materiais, os mais duros são os que sofrem maior
destruição quando submetidos à pressão e às
mudanças.
P. Porque as pessoas temem as
mudanças e o que elas devem fazer para que não
sejam prejudicadas pelo medo no ambiente de
trabalho?
Mario Persona - O medo das
mudanças é natural, mas é também o que sempre
impulsionou o homem a buscar novas fronteiras.
Ninguém sobe uma montanha se não tiver medo.
Ninguém entra em campo para vencer o adversário
com tranquilidade. É preciso adrenalina para
funcionarmos a todo vapor e superarmos nossos
limites.
Outra característica que o profissional deve ter
é ser curioso. Já pensou como seria o mundo sem
inventores? Mas se temos tantas coisas que hoje
nos beneficiam, isso é o resultado de um
batalhão de curiosos que ao longo dos séculos
não se contentou que as coisas permanecessem
sempre iguais. Inventores são pessoas que
enxergam um problema e têm o desejo de
transformá-lo em uma oportunidade.
Pessoas curiosas vivem a vida mais intensamente,
não se acomodam. Creio que este deve ser o
perfil de cada profissional, não importa sua
atividade. Existem oportunidades de melhoria em
qualquer área de uma empresa e quando alguém
descobre uma forma de mudar a maneira de se fazer
algo, isso pode ser uma oportunidade a mais para
demonstrar sua capacidade e subir em sua
carreira.
P. Qual é o segredo para o sucesso
do trabalho em grupo? Como a sinergia e a
colaboração podem ajudar todas as partes?
Mario Persona - Eu acredito muito
na criação individual e na soma de estalos
criativos. Os grandes criativos são indivíduos,
não equipes, mas o resultado de sua criação
acaba sendo amplificado pelo trabalho de equipe.
A empresa jamais deve tolher a criação
individual sob o pretexto de que todos devem
trabalhar em equipe para buscar um consenso. O
consenso é a média e a média sempre estará
abaixo da capacidade do melhor membro da equipe.
É preciso estimular a criatividade individual e
buscar somar seus resultados. Mesmo a
criatividade individual se baseia nas ideias de
muitas pessoas para nascer, portanto para que as
coisas aconteçam é preciso que as pessoas
conversem em uma empresa, troquem ideias, sejam
estimuladas a colocar na mesa suas opiniões, por
mais absurdas que possam parecer.
Um dia conheci um empresário em um aeroporto e
ele contou que trabalhava de consultor em uma
empresa de agronegócios. Um dia ele apresentou
à empresa um plano de exportar mel brasileiro
para os Estados Unidos e foi ridicularizado por
todos na reunião. Acharam sua ideia absurda.
Naquele momento ele teve um lampejo de
empreendedorismo e disse que ia ele mesmo colocar
em prática sua ideia. Os executivos da empresa
perguntaram como ele iria fazer aquilo e ele
respondeu que o momento de saber já tinha
passado e eles não aproveitaram. Foi aí que ele
se transformou em um exportador de mel. Quantas
histórias de grandes ideias nasceram de
funcionários de empresas que foram
ridicularizados e acabaram se transformando em
grandes empreendedores?
P. Quais benefícios serão gerados
por meio da atuação em conjunto dos
colaboradores e parceiros? Como potencializar
isso com marketing?
Mario Persona - O marketing tem o
grande papel de identificar, analisar e atender
desejos e oportunidades de mercado, mas deve
fazer isso levando em conta os recursos de que
dispõe. Entre esses recursos estão as
capacidades individuais e coletivas, tanto
internas, dos colaboradores, como externas, dos
parceiros. O marketing deve sempre começar
qualquer ação como uma cozinheira antes de
preparar um jantar: "O que temos na
despensa?", pergunta ela.
Com a ajuda de Recursos Humanos deve fazer um
mapeamento dessas capacidades para tentar
entender como fazer o casamento desses recursos
com as necessidades e desejos do mercado. É
assim no desenvolvimento de qualquer produto ou
serviço. Tendo isso em mãos, pode-se trabalhar
melhor somando as capacidades detectadas para
gerar um maior ganho em produtividade ou na
criação de novos produtos e serviços.
É claro que nada disso acontece se não existir
o elemento motivador, que geralmente é visto
como ganho financeiro, prazer de exceder as
expectativas, prestígio de ser visto e coisas
assim que são inerentes ao ser humano. O maior
ativo de uma empresa são as pessoas e quando a
empresa não entende o comportamento humano acaba
extraindo apenas o mínimo que cada colaborador
é capaz de dar.
Entrevista concedida à Revista
Rodobens Consórcio em 26/11/2010.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas frases a título de
declarações do entrevistado. Para não perder o
que eu disse na hora da entrevista, costumo
gravar ou dar entrevistas por escrito. A íntegra
do que foi falado você encontra aqui. Se achar
que este texto pode ajudar alguém, use o
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