P.
- Por que plenitude é a área mais favorável
dentro do ciclo de vida de uma empresa?
Mario Persona - Quando a empresa atinge
sua fase de plenitude, ela está no melhor dos
mundos. Ela consegue atingir e superar metas,
existe equilíbrio em todas as suas áreas, a
gestão está acertando todas no prego e quase
nenhuma na ferradura, e a equipe está afinada
com os objetivos da empresa. Ela realiza todo o
seu potencial e pode se gabar de possuir todos
aqueles adjetivos que consultores e palestrantes
gostam de repetir em seus discursos, como
sinergia, empatia e desenvolvimento sustentável.
O temperamento da plenitude de uma empresa pode
ser comparado ao da fase adulta, quando deixamos
de correr atrás de apagar incêndios, de
atropelar as pessoas ou de se deixar envolver por
modismos passageiros. É uma fase de pé-no-chão
e também de planejamento consciente do futuro,
criação de desafios palpáveis para garantir
esse mesmo futuro, e principalmente, de usufruir
do resultado de anos de trabalho. A diferença do
comportamento humano é que a empresa em sua
plenitude não pensa na aposentadoria.
P. - Quando uma empresa chega à sua fase
plena, consolidada? Como fazer essa
identificação?
Mario Persona - Ela é lucrativa, detém
uma boa participação no mercado, mesmo que não
seja líder, e tem equilíbrio para enfrentar
ameaças. Não que estas deixem de existir, mas
uma empresa na fase plena irá possuir também
uma gestão e uma equipe que também atingiram
maturidade suficiente para cada um saber o seu
posto quando estão sob ataque.
O fato de uma empresa ser grande e lucrativa não
significa que seja madura se o seu clima
organizacional ainda refletir inquietação
interna e incapacidade para lidar com desafios e
ameaças. O pânico é característico da falta
de maturidade, e não são poucas as empresas que
crescem, prosperam e funcionam perfeitamente bem
em céu de brigadeiro, mas que trocam os pés
pelas mãos quando vem a tempestade.
Portanto, uma das perguntas que uma empresa deve
fazer para testar sua maturidade é: Chegamos
até aqui porque os ventos foram propícios ou
por causa de nossa capacidade de pilotar?
P. - Quais os grandes desafios de uma
organização plena?
Mario Persona - Toda vaca sagrada deve
ficar atenta para não virar hambúrguer. Aliás,
é esse o título de um best seller da década de
noventa: "Vacas sagradas dão os melhores
hambúrgueres". Uma empresa na plenitude tem
a tendência de Narciso, de ficar se admirando e
deixar as oportunidades passarem. Afinal, quem
precisa de oportunidades quando atingiu o pico do
Everest? O problema é que no alpinismo depois do
pico as chances de queda aumentam.
Por incrível que possa parecer, algumas coisas
positivas podem se transformar nos próprios
riscos para a empresa plena. Uma empresa bem
administrada e com excelente gestão de suas
finanças poderá ser engodada justamente por
isso. Sua sustentabilidade não se deve à sua
capacidade de correr riscos, inovar e conquistar
novos mercados, mas tão somente de sua
parcimônia administrativa. É como a pessoa que
investe em caderneta de poupança e controla
religiosamente os seus gastos para manter o
padrão de vida no estágio considerado ótimo.
Não faz investimentos alternativos, não corre
riscos, mas também não avança além daquilo
que pode ser fruto do momento adquirido no
passado.
P. - Quais as medidas, o que uma
organização consolidada deve fazer para se
manter nesta fase?
Mario Persona - O maior desafio de uma
organização plena é manter em dia sua
lipoaspiração e resistir ao deslumbramento dos
números, principalmente, como eu já disse, se
eles forem o resultado apenas de ventos
propícios. Tirar o olho do umbigo para observar
atentamente o mercado é um desafio enorme nessa
hora. Acreditar que o mercado não vive sem seus
produtos ou serviços é o grande engano no qual
grandes empresas sucumbiram. Até quando morre o
Papa eles arrumam outro.
P. - Como reativar o impulso para
continuar crescendo?
Mario Persona - O primeiro passo é
investir em sua área de marketing, e quando digo
isso não estou falando de propaganda. Ficamos
tão acostumados a usar a palavra como sinônimo
de propaganda que é sempre bom fazer essa
ressalva. O problema é que na sua fase plena a
empresa provavelmente já terá um departamento
de marketing consolidado, com velhos marinheiros
de olho na pescaria da aposentadoria, e é aí
que mora o perigo.
Esta é a fase que Kotler descreve como marketing
burocrático, depois da empresa ter passado pelo
marketing empreendedor, que deu seu impulso
inicial, e pelo marketing profissionalizado, a
fase de encantamento com números e pesquisas e
com pouco espaço para o insólito, improvável e
imponderável.
Às vezes é preciso criar um departamento
alternativo de marketing, com carta branca para
inovar, mas o difícil é administrar isso ou
vencer a resistência dos guardiões do Graal dos
velhos paradigmas. Algumas empresas são
conhecidas por seus laboratórios terem criado
inovações que só foram aproveitadas com
sucesso por terceiros.
P. - Estabelecer metas e objetivos é
importante para se continuar crescendo?
Mario Persona - Sim, é importante, mas
isso deve permear a cultura da empresa.
Considerando que uma empresa é formada por
pessoas, essas metas devem ser também as metas
das pessoas que a compõem, ou a empresa nunca
sairá do chão. É aí que entra um bom trabalho
de comunicação interna, de endomarketing, que
ajude a vender as metas entre a equipe e
motivá-las a sair em busca do ouro.
P. - Qual o perigo da empresa se acomodar
e ficar estável?
Mario Persona - O maior perigo é perder
mercado, algo difícil de se conquistar. Perder
algo que gastamos uma vida para conseguir é algo
rápido. Encontrar ou voltar ao ponto onde
perdemos é um processo demorado. Portanto uma
análise contínua de riscos e oportunidades deve
estar em todas as páginas da agenda de uma
empresa na fase de plenitude. Se ela procurar,
vai descobrir que isso estava na agenda dos anos
em que começou sua jornada como algo tão
natural quanto a adrenalina que move uma criança
ou adolescente a crescer, enfrentar riscos e se
divertir.
Quando as pessoas que compõem uma empresa
começam a considerá-la chata, maçante e
rotineira, é hora de soar o alarme. Todo adulto
deveria viver o tempo todo com a disposição de
um adolescente e a ingenuidade criativa de uma
criança.
Em uma empresa estável pode ocorrer outro
fenômeno que é típico do ser humano. Enquanto
a empresa cresce, todos estão unidos em
conquistar o mercado, e isso tem a ver com a sede
de poder e de domínio que é inerente ao ser
humano. Com o mercado conquistado, a bandeira
fincada no cume do monte e as muralhas
reforçadas contra adversários e intrusos, a
luta pelo poder passa a ser interna. Isso porque,
como eu disse, é algo inerente ao ser humano
essa busca por domínio. Começam as intrigas, as
acusações falsas, as traições, os excessos,
as execuções - tudo igual à história dos
grandes reinos depois que atingiram seu apogeu.
P. - Qual a dica sobre o tema que você
pode dar aos pequenos e médios empresários que
estão consolidando o seu negócio?
Mario Persona - Uma única dica: nunca
seja grande, ou pelo menos nunca se considere
como tal. Isto se resume em uma cultura
empresarial de atitudes como humildade,
simplicidade, reconhecimento das próprias
fraquezas e dos pontos fortes da concorrência,
desejo de mudar, coragem de diversificar,
disposição para empreender e ousadia para
inovar. A jactância e o orgulho sempre precedem
a queda.
Entrevista concedida para a Newsletter
SAP em 07/08/2008.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas frases a título de
declarações do entrevistado. Para não perder o
que eu disse na hora, costumo gravar ou dar
entrevistas por escrito. A íntegra do que foi
falado você encontra aqui. Se achar que este
texto pode ajudar alguém, use o formulário
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