Mario Persona - Um hobby pode virar
negócio quando existir um conjunto de fatores,
que inclui a determinação da empreendedora e
seu faro para negócios. Determinação e paixão
apenas não bastam, se não existir uma visão de
mercado e de lucro. Muitos hobbies, por mais
interessantes que sejam, jamais se transformam em
negócios lucrativos simplesmente por não
existir um mercado para eles ou por não serem
capazes de gerar escala.
A capacidade de extrapolar o próprio hobby
também pode ser importante, pois muitos
entusiastas de algum tipo de hobby costumam ser
extremamente puristas. Por exemplo, uma
colecionadora de bonecas antigas pode ser tão
focada na legitimidade de sua coleção que
jamais pensará em fabricar réplicas. Ela pode
até conseguir criar um negócio de compra,
restauração e venda de bonecas antigas, mas
jamais conseguirá a escala que conseguiria caso
se propusesse a fabricar réplicas ou miniaturas
de suas preciosas bonecas. O mesmo raciocínio se
aplica aos colecionadores de rádios, carros,
telefones e outras antiguidades.
Quais os aspectos positivos desse
casamento? O quanto isso pode contribuir para o
sucesso do negócio?
Mario Persona - Geralmente a pessoa que
adota um hobby acaba se transformando em
autoridade no assunto, e isso traz valor a
qualquer negócio. Alguém que goste tanto de seu
hobby a ponto de pesquisar e conhecer a fundo sua
atividade acabará se transformando em
referência no mercado. Isso também pode servir
muito bem na hora de conseguir projeção para o
seu negócio. Sabemos que a imprensa sempre busca
pessoas especializadas nas mais diversas áreas
para agregar valor às matérias publicadas na
mídia, e quando o especialista é também um
empreendedor na mesma área que está sendo
coberta pela matéria, ele pode acabar unindo o
útil ao agradável. Um campeão de iatismo que
fabrique seus próprios veleiros certamente terá
um espaço maior de exposição, tanto por sua
especialidade como por sua capacidade de
empreender.
Quais os aspectos negativos? Há casos de
decepção com o hobbie?
Mario Persona - Creio que o aspecto mais
negativo é a limitação que alguns se impõem
ao adotarem algum tipo de hobby. Alguns adotam
uma atitude de altivez em relação aos outros, o
que certamente acabará transparecendo no trato
com os clientes, caso transforme seu hobby em
negócio. Mas esta é uma dificuldade que ocorre
com qualquer especialista em qualquer área,
profissional ou não. Se eu sou um especialista
em uma determinada área, posso me achar o tal e
acabar desdenhando de todos os que não sabem
tanto quanto eu. Como resultado acabo assumindo
uma posição de guru do Himalaia, totalmente
inacessível aos meros mortais, o que é péssimo
para qualquer negócio.
Por outro lado, posso errar na outra direção,
subestimando minha experiência e capacidade por
achar que qualquer pessoa comum seria capaz de
saber e fazer o mesmo que sei e faço. Então
acabarei desistindo de transformar minha
experiência em um negócio por achá-la
extremamente banal. Por exemplo, eu posso adorar
cozinhar e fazer pratos espetaculares, mas para
mim isso é tão simples e corriqueiro que
acabarei achando que ninguém iria querer pagar
por meus pratos, por achar que qualquer pessoa
seria capaz de fazê-los. Ou, se me aventuro a
vender meus pratos, serei incapaz de dar a eles o
valor correto e meus preços não permitirão
lucrar com o negócio.
Outra dificuldade do hobby é o foco extremo no
objeto do hobby. Se eu sou um pintor e meu desejo
é lucrar com meu hobby, preciso estar aberto à
possibilidade de meus clientes não estarem tão
interessados em minha arte quanto em apenas mais
um objeto de decoração que preencha uma parede
vazia. Então preciso ser maleável o suficiente
para desviar um pouco o foco de meu negócio, que
deve passar de arte para decoração de
ambientes, oferecendo não apenas os objetos que
crio, mas todo o contexto onde eles estão
inseridos. Se for mais maleável ainda, posso
acabar descobrindo que meus admiradores estão
mais interessados em minhas molduras do que em
meus quadros e aí o negócio toma outro rumo.
Como dividir o que é lazer e o que é
trabalho?
Mario Persona - Quando o hobby se
transforma num negócio a coisa muda de figura.
Quem faz algo por lazer faz porque gosta e faz
nas horas vagas. Não está sujeito a pressão ou
exigências de uma clientela. A pessoa deve se
perguntar se estaria disposta a fazer aquilo oito
horas por dia, mesmo quando não estivesse
inspirada ou animada para fazê-lo. E mais, ela
deve também entender que um hobby transformado
em negócio traz consigo outras responsabilidades
e a necessidade de novas habilidades, como
marketing, vendas, atendimento ao cliente,
administração, finanças etc. É claro que para
quem gosta do que faz isso nunca é visto como
trabalho, mas nem sempre o candidato a cozinheiro
estará disposto a passar as noites do sábado e
domingo grudado em um fogão com cem clientes
esperando e reclamando.
Quais os setores do mercado em que essa
prática é mais comum?
Mario Persona - Creio que o setor que
predomina hoje seja o de informática, pois temos
toda uma geração de jovens que vão direto de
casa para o mercado, muitos sem sequer passarem
por uma educação formal na área. Mas há
negócios mais tradicionais, como o de
confecções, que geralmente começam com uma
costureira que adora costurar para a família e
acaba ampliando sua atividade para transformá-la
em negócio.
Esses dias entrevistei pelo menos duas
mulheres que abriram negócios a partir de
hobbies: uma tem um ateliê de produção de
bijuterias e a outra uma luderia. Esse tipo de
comportamento de transpor o hobbie para um
negócio é mais comum entre mulheres ou homens?
Há alguma diferença?
Mario Persona - Eu creio que seja mais
comum entre as mulheres, justamente pela
necessidade que muitas têm de transformarem em
negócio alguma atividade que possam fazer em
casa enquanto criam seus filhos. Além disso é
preciso lembrar que hoje muitos lares brasileiros
são encabeçados por mulheres que se desdobram
em administrar a casa, a família e ainda
garantir uma fonte de renda.
Outra característica é que você encontra mais
mulheres com hobbies produtivos, portanto com
maior possibilidade de serem transformados em
negócios que começam em pequena escala. Uma
mulher que goste de cozinhar ou costurar terá
maior facilidade em transformar seu hobby em
negócio, pois pode ser que já exerça essas
atividades no dia a dia até por necessidade. Um
homem que goste de jogar futebol precisará
percorrer um longo caminho até se transformar em
um empreendedor no segmento esportivo. Talvez sua
esposa chegue lá antes dele, fabricando e
vendendo confecção esportiva produzidas em sua
sala de estar.
Quais cuidados esse tipo de empreendedor
deve tomar ao abrir o negócio?
Mario Persona - Geralmente quem tem um
hobby é péssimo para administrar aquilo como
negócio. É comum vermos isso em profissionais
de informática, que são verdadeiros gênios mas
não são capazes de vender sua genialidade.
Então resta a eles trabalharem de funcionários
de alguma empresa onde poderão continuar
desenvolvendo seu hobby de criar programas,
enquanto garantem um sustento mínimo. Portanto,
quem tem um hobby deve fazer uma auto-análise
antes de decidir transformar aquilo em negócio.
Se for incapaz de administrar ou vender o que faz
é melhor procurar quem o faça, seja por meio de
sociedade ou parceria. Não são poucos os
artistas que só decolaram mesmo graças aos seus
empresários. Eles eram muito bons em sua arte,
mas não tinham capacidade para transformá-la em
negócio.
Entrevista concedida à Revista
Mulher Executiva em 30/10/2009.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas frases a título de
declarações do entrevistado. Para não perder o
que eu disse na hora da entrevista, costumo
gravar ou dar entrevistas por escrito. A íntegra
do que foi falado você encontra aqui. Se achar
que este texto pode ajudar alguém, use o
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