Fui entrevistado pelo site da
Revista Exame para uma matéria sobre carreira e
entrevista para novo emprego. A íntegra da
entrevista você encontra aqui.
P.
Durante uma entrevista de emprego, quais os
principais pontos que o candidato deve se
atentar?
Mario Persona - O primeiro é, sem
dúvida, sua aparência. As pessoas ainda julgam
o livro pela capa, portanto é preciso se
apresentar na entrevista com uma aparência
condizente com a imagem e cultura da empresa. Uma
entrevista de emprego vestido de bermudas e
camiseta, que poderia funcionar em uma empresa
jovem e voltada para o mercado de games, seria um
desastre numa entrevista para um posto em um
banco, por exemplo.
Saber por que deseja trabalhar naquela empresa em
especial é importante, portanto o candidato deve
procurar pesquisar o máximo sobre a empresa.
Neste caso é preciso cuidado se o candidato for
daqueles que atira currículos para todos os
lados, pois poderá se enganar na hora de
apresentar as razões certas para a empresa
errada.
Outro ponto importante é ter bem claro em mente
o valor que pretende agregar à empresa. Os
candidatos mais novos costumam encarar a empresa
contratante como se fosse uma escola que lhes
dará experiência, mas nenhuma empresa gosta de
ser vista assim. Empresas são entidades em busca
de lucro e contratam pessoas para ajudar neste
sentido, não para formá-las e depois perdê-las
para a concorrência.
O candidato, na hora da entrevista, deve se
comportar como um vendedor que já tem
informações daquilo que seu cliente busca de
valor, e deve saber traduzir suas competências
para serem percebidas como o valor que a empresa
pretende agregar ao seu quadro. Ou seja, ele
precisa criar na mente do entrevistador a clara
idéia de ser exatamente a pessoa que buscam, ou
ao menos aquela que poderá ser a ideal com o
mínimo de investimento em capacitação.
É bom também ter uma história bem traçada de
suas últimas atividades para não ser pego de
surpresa. Mentir em entrevistas é péssimo, pois
o tempo será capaz de revelar a verdade e isso
poderá ser constrangedor no futuro. Se não lhe
custar o emprego, poderá custar promoções que
dependam de confiabilidade.
P. Como a expressão corporal pode
exercer influência sobre o recrutador?
Mario Persona - Todo profissional
deveria gastar algum tempo lendo um livro de
expressão corporal para se preparar, não só
para uma entrevista de emprego, mas para toda a
sua vida profissional. Nosso corpo envia
continuamente mensagens positivas e negativas, e
um candidato a emprego faz isso de forma
amplificada, por se tratar de um momento de
grande estresse.
Sua postura na cadeira, o modo de sentar, de
cruzar as pernas, a posição dos braços, os
gestos com as mãos, os tiques nervosos - tudo
irá revelar aquilo que ele realmente é por
detrás das belas palavras que tenta formular. Um
entrevistador experiente estará atento aos
mínimos sinais de contradição. Quando ficar em
dúvida, o entrevistador acreditará mais no que
vê do que no que ouve.
Tocar frequentemente o próprio corpo denota
insegurança e até mentira em alguns casos.
Virar os olhos nas órbitas pode enviar sinais de
impaciência com as perguntas. As mãos
gesticulando de forma divorciada da fala pode
indicar falta de clareza e segurança nas
idéias. Até o corte do cabelo fala muita coisa
acerca do candidato. Se for mulher e jovem, e
estiver se candidatando a um cargo que exige
rapidez, o melhor penteado é o rabo-de-cavalo.
Para uma posição de liderança, cabelos curtos
costumam dar maior seriedade. A cor da roupa na
entrevista também tem seu peso. O azul dá
sobriedade e ar de inteligência. Enfim, tudo
comunica.
P. Como fazer marketing pessoal sem
parecer egocêntrico?
Mario Persona - A idéia de
marketing pessoal ficou associada ao egocentrismo
porque o termo acabou se deteriorando para um
sentido de autopromoção. Porém marketing
pessoal não é isso, e sim todo um trabalho de
identificação, análise e atendimento de
necessidades. Mais do que tudo, marketing pessoal
é um conjunto de ações que leva o profissional
a promover as pessoas de seu relacionamento para
que elas o promovam, ao invés de ele fazer isso
consigo mesmo.
Um exemplo excelente de marketing pessoal são os
cinco primeiros minutos do filme "A lista de
Schindler", quando o personagem visita um
bar e de diferentes maneiras descobre, analisa e
atende as necessidades e desejos das pessoas ali.
O garçom que o recebe pergunta aos colegas se
conhecem aquele homem e eles dizem que não.
Porém, no final da cena, o mesmo garçom está
promovendo o personagem como se fosse "o
cara". No entanto, em nenhum momento ele se
promoveu. O que fez foi promover as pessoas para
que elas criassem uma impressão positiva a seu
respeito. Isso é marketing pessoal.
P. Quais as dicas para um
profissional convencer o recrutador de que ele é
o candidato ideal para a vaga?
Mario Persona - Pesquisar bastante
a empresa, suas necessidades, sua cultura, o
perfil das pessoas que trabalham lá e tentar ao
máximo ser uma "metamorfose
ambulante". Sem comprometer seu caráter e
estilo, ele deve procurar se aproximar da imagem
do profissional que a empresa procura. É
importante que ele saiba que empresas não
contratam máquinas. Máquinas elas compram.
Na hora de contratar, a empresa quer seres
humanos, mas seres humanos que estejam alinhados
com os propósitos da empresa, e esses
propósitos incluem os valores que a empresa tem
ao lado de sua visão e missão. Valores não
são comprados, valores são agregados à lista
daqueles que a empresa possui, e é isso que o
candidato precisa saber levar: valores que
realmente sejam significativos.
A dificuldade maior é que valores são coisas
que dependem de uma vida prévia, e muitos
candidatos, principalmente os iniciantes no
mercado de trabalho, nem sempre se preocuparam em
cultivar esses valores no tempo da faculdade e
dos relacionamentos de amizade. Ao contrário,
colecionaram latas e garrafas, ao lado das quais
podem ser vistos em todas as fotos de seu perfil
no Orkut. E pode ter certeza de que o recrutador
vai visitar seu perfil e suas fotos no Orkut, e
isso vai falar bem mais alto do que um currículo
feito no capricho. Como escreveu Emerson, Aquilo
que você é soa tão alto que mal posso ouvir o
que você diz.
Entrevista concedida ao site da
Revista Exame em 19/07/2010.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas frases a título de
declarações do entrevistado. Para não perder o
que eu disse na hora da entrevista, costumo
gravar ou dar entrevistas por escrito. A íntegra
do que foi falado você encontra aqui. Se achar
que este texto pode ajudar alguém, use o
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