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ENTREVISTA
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Poder de compra das mulheres
P Há muito tempo fala-se, no mercado, que
as mulheres detêm quase 100% do poder de compras
em relação aos homens em áreas que vão desde
os alimentos e produtos de beleza aos carros e
imóveis. Isto é verdade? Há pesquisas recentes
que comprovam?
Mario Persona - A pesquisa que li
indicava que as mulheres seriam responsáveis
pela maior parte das decisões de compra de uma
família, e isso parece ser uma tendência
crescente. À medida que as mulheres passam a ter
uma participação maior no mercado de trabalho
elas aumentam seu ganho individual, o que também
reflete em seu poder de compra.
É importante entender que não é só o seu
poder individual de compra que aumenta como
conseqüência disso, mas, por ela ser
responsável pelo aumento da renda familiar, o
poder de compra da família como um todo também
aumenta graças à participação mais ativa da
mulher no mercado de trabalho. Trocando em
miúdos, ainda que uma pesquisa indique que o
marido esteja comprando mais, isto só foi
possível por causa da participação da mulher
no aumento da renda familiar.
As pesquisas sobre quem decide comprar nem sempre
podem ser interpretadas com rigor, pois elas são
feitas com entrevistas, e as respostas podem
receber influência culturais. Uma pesquisa pode
ter resultados diferentes dependendo do país ou
de quando a pesquisa é feita. Se uma pesquisa
entre os moradores de uma metrópole européia
há 30 anos mostrasse que a mulher tinha uma
maior participação nas decisões de compra da
família, pode ser que a mesma pesquisa hoje
indique o contrário. A grande população de
mulheres indianas e árabes na Europa hoje pode
apontar para um padrão de comportamento de
consumo diferente daquele encontrado há 30 anos,
quando a população era predominantemente
européia ocidental.
P A participação da mulher
também cresce no Brasil?
Mario Persona - Como eu disse, a
influência cultural é muito grande neste
aspecto, e o Brasil não foge à regra. A mulher
brasileira está cada vez mais ativa no mercado
de trabalho, e não só isso, mas já ocupa
funções que antigamente eram ocupadas
predominantemente por homens, como é o caso de
cargos gerenciais.
O raciocínio é simples. A partir do momento em
que mais mulheres decidem atuar profissionalmente
elas também passam a se dedicar mais ao preparo
profissional, cursando escolas técnicas,
universidades e cursos de pós-graduação. Com o
aumento do nível de escolaridade surgem também
maiores oportunidades de ocupar cargos mais
elevados no mercado de trabalho, o que se traduz
em melhores salários. Além disso a mulher
brasileira tem demonstrado um perfil bastante
empreendedor e são muitas que hoje dirigem suas
próprias empresas.
Não tenho certeza, mas acho que hoje no Brasil o
número de empreendedores está mais ou menos
dividido de forma igual entre homens e mulheres.
Um outro fator também influencia essa
tendência, tanto de empreendedorismo como de uma
maior participação da mulher no mercado de
trabalho, resultando em um maior poder de compra.
Falo do número cada vez maior de separações e
de mulheres que, por um motivo ou outro, acabam
ficando responsáveis pelo sustento da família.
Uma outra realidade que também ajuda nesse
sentido, embora seja injusta, é o fato de as
mulheres, de uma forma geral, receberem salários
menores do que os dos homens. Por esta razão
muitas empresas acabam preferindo contratar
mulheres, o que reduz as possibilidades de
emprego para os homens e cria uma situação cada
vez mais comum, que é o da mulher trabalhando
fora e o homem cuidando da casa enquanto procura
por um emprego.
P Quais as conseqüências para o
mercado?
Mario Persona - O mercado acaba sendo
obrigado a se adaptar a essas mudanças,
segmentando ainda mais suas ofertas. Se
antigamente você tinha produtos que eram
basicamente dirigidos de forma bem distinta a
homens e mulheres, hoje é preciso atender os
dois. Antigamente apenas o homem da casa comprava
o carro, mas hoje as mulheres participam mais
ativamente da escolha e da decisão de compra.
Já é possível perceber determinadas marcas de
automóveis, computadores, celulares ou outros
produtos direcionados especificamente a mulheres.
Há casos de modelos de automóveis que são
eleitos como preferidos das mulheres e essa
tendência acaba surpreendendo até os
fabricantes, que inicialmente não tinham essa
intenção.
P De que forma o marketing e a
publicidade trabalham com esses dados? É
possível citar exemplos de campanhas
publiciárias?
Mario Persona - Sim, por exemplo, uma
pesquisa que vi apontava que 63% dos compradores
do Citröen C3 são mulheres. Quando isso
acontece, a área de marketing precisa saber
muito bem como tratar da tendência, que pode ser
uma vantagem ou um estigma para o produto. Se eu
produzo algo visando o público em geral, e esse
produto acaba identificado com apenas uma parcela
da população para a qual era destinado, isso
pode levar a outra parcela a deixar de
comprá-lo. Alguns mais machistas podem não
querer um carro, um computador ou um celular
"de mulher". Por isso algumas empresas
preferem não revelar a porcentagem de seus
produtos que são adquiridos por mulheres.
P Existe um segmento principal em
que o poder de decisão das mulheres é
extremamente forte? E outros em que este
fenômeno vem crescendo?
Mario Persona - Acredito que a decisão
de compra dos produtos de consumo diário venha
predominantemente das mulheres, pois elas têm
uma habilidade maior para escolher e decidir o
que é melhor. É fácil perceber isso. Mande um
homem e uma mulher com a mesma lista de compras a
uma feira e depois compare a qualidade do que
trouxerem.
Produtos que antigamente eram decididos quase
exclusivamente por homens, como era o caso do
carro e do telefone, hoje têm grande
participação das mulheres. A mudança foi mais
de fundo cultural e tecnológico, já que
antigamente o que interessava era que o carro
fosse possante, não quebrasse etc.,
características puramente técnicas.
Hoje, quando a plataforma tecnológica de um
automóvel praticamente virou commodity, é o
estilo que tem o maior apelo na hora da compra, e
as mulheres ganham dos homens quando a questão
é estilo, bom gosto, conforto etc. O telefone é
outro produto que mudou e por isso trouxe a
mulher para o círculo de decisão. Hoje um
telefone não é mais aquele aparelho que ficava
na mesinha do canto, mas é uma ferramenta de
comunicação e trabalho que ganhou mobilidade.
As mulheres têm uma grande participação na
decisão de compra, não só de telefones fixos e
celulares, mas de computadores, PDAs, câmeras,
DVDs e tudo aquilo que antigamente só era objeto
de desejo da parcela masculina da população.
P E no caso de a decisão ser dos
homens? Há, também aí, a influência feminina?
Mario Persona - Sem dúvida, os homens
costumam ser inseguros quando compram coisas que
estão fora de sua lista de objetos de desejo. O
mesmo acontece com roupas, já que eles compram
roupas porque gostam de ficar elegantes para as
mulheres, e nem tanto para si mesmos. Existe no
homem uma necessidade de aprovação exterior
maior até do que entre as mulheres, que podem
comprar uma roupa só porque gostaram dela ou por
se sentirem bem.
Entrevista concedida ao Portal
Vila Mulher em 17/09/2008.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas declarações do
entrevistado. Para não perder o que eu disse na
hora, costumo gravar ou dar entrevistas por
escrito. A íntegra do que foi falado você
encontra aqui. Se achar que este texto pode
ajudar alguém, use o formulário abaixo para
compartilhar.
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Veja em www.mariopersona.com.br
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