Despir a camisa

Negócio pra boi dormir

O eletricista escalou com cuidado a desconfiada escada, observado de perto – bem de perto – pela veterana senhora. Era ela quem segurava a barra da escada e via a barra da calça do eletricista escalar rumo ao pesado lustre pendurado no teto do ilustre sobrado. De mudança, ele iria iluminar a madame em um apartamento menor.

Um dos "causos" preferidos de meu pai, isso se passou em um ano que não passava dos oitenta, mas que fez muita gente correr mais para não ficar para trás. A indústria não tinha lustre, mas também estava de mudança. Qualidade total, reengenharia, downsizing e outras expressões desembarcavam aqui nas malas de gurus alienígenas. Gurus que não traziam flores, colares e mantras nas mochilas, como nas décadas precedentes. 

Mais racionais, indicavam uma nova rota para o Nirvana da produção, com promessas de lucratividade eterna para quem implementasse seus preceitos de gestão. Em lugar de arroz integral, qualidade total. Em lugar do shoyu e do açúcar mascavo, reengenharia e downsizing. Nada de rapar cabeças em estilo monástico. A moda agora era cortá-las rente, na altura da gravata ou da gola do macacão, dependendo do status do cidadão.

No chão de fábrica, operários se acotovelavam maravilhados em redor de um novo maquinário automático, programável, implacável. "Agora o serviço vai ficar mais leve!" — exclamavam. E ficou. Tão leve que dispensou o peso morto de gente que teimava em dar sinais de vida. Era o trator chegando à roça industrial.

No andar de cima, colarinhos engomados eram mesmerizados pelo fulgor verde-fósforo das telas bruxuleando sistemas informatizados de gestão. O último a sair já não precisava apagar a luz. O sistema cuidaria disso. Máquinas movidas a vapor de megabytes atropelavam boa parte da mão-de-obra cerebral.

Se você for militante da ala de defesa de uma sociedade estática, saudosista e retrógrada, deve estar babando com o que leu até aqui. Pode parar. Não pretendo fazer apologia à ineficiência da estagnação, mas falar de mudanças. Quase sempre temidas, cruéis, injustas, mas profiláticas. Foi mudando de estatura que eu e você crescemos.

Poucos percebem que aquelas mudanças dramáticas ajudaram a revolucionar o trabalho e a comunicação. Os mesmos cérebros decepados das empresas, aliados aos filhos desocupados dos que permaneciam empregados, criaram a produção de intangíveis que hoje é uma nova riqueza. Foi essa situação que impulsionou a Internet e seus derivados virtuais.

Então, os barões da indústria, sucessores dos barões do campo, viram emergir lavouras de bits e indústrias de marcas, vendendo idéias e gerindo percepções. Hoje a carne do sanduíche famoso vem de um boi que a empresa nunca criou, moeu ou fritou. Terceirizou. Meu par de tênis foi fabricado por uma indústria que nunca fabricou, mas inovou. Como entender isso?

O maior valor de um corpo está no órgão que gere, não no que digere, nem no que produz. Países ricos gerenciam; países pobres produzem. É só por isso que podemos nos gabar de nossa indústria e agricultura dar olé no primeiro mundo em competitividade. Nem poderia ser diferente. O peão sempre produz mais tangíveis do que o patrão. E ganha menos.

Mas essa situação não é segura para o segundo, nem estática para o primeiro. A Roma na fase decadente só gerenciava. A produção acontecia terceirizada nas colônias de bárbaros, que progrediram uma barbaridade e hoje terceirizam. Muitos impérios já passaram por isso. Outros passarão, porque as mudanças não podem parar. Por isso é tão importante saber despir a camisa. 

Que é preciso vesti-la, estamos cansados de ouvir. Só que amanhã não estaremos fazendo a mesma coisa, no mesmo lugar, da mesma maneira. Será preciso despir a camisa de hoje e estar com o corpinho flexível para caber na de amanhã, que pode não ser do seu número e cor. Você é quem terá que se adaptar, se quiser galgar a escada que leva ao sucesso.

Mas não se iluda. Na subida vai ser preciso estar pronto para despir e vestir camisas sempre, para não ser apanhado pelo inesperado e perder as calças. Foi o que aconteceu com o eletricista da história que meu pai não se cansava de contar. Surpreendido pelo peso do lustre que acabara de desparafusar do teto, a barriga retesou e a calça escorregou. 

Meu pai nunca contava o final da história. Deixava os ouvintes com a imaginação suspensa como os braços do eletricista, equilibrando o lustre que não podia soltar. Enquanto a senhora chorava de tanto rir sem saber para onde olhar, segurando a escada que não podia largar.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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