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O que muda na carreira do médico?Quais foram as
principais mudanças da área de saúde, que têm
influenciado os negócios da classe médica?
Mario Persona - Antigamente
profissionais da saúde eram raros, pois o
número de escolas era bem menor e a dificuldade
para cursá-las bem maior. A medicina também
caminhava a passos mais lentos e eram poucos os
equipamentos que um médico precisava utilizar
para exercer sua profissão.
Hoje existe um volume muito grande de
profissionais, e as escolas oferecem cada vez
mais vagas em condições acessíveis a uma
parcela cada vez maior da população. A
evolução da prática médica se dá a passos
largos e todos os dias são feitas novas
descobertas. Além disso, a medicina foi invadida
por outras áreas do conhecimento, como a
física, a eletrônica e a computação, exigindo
que o médico aumente o leque de conhecimentos
que precisa ter para ser bem sucedido na
profissão. A competitividade aumentou e as
cooperativas e planos de saúde criaram uma nova
realidade para a profissão.
Nessa nova realidade, quais os requisitos
fundamentais do médico que quer se destacar em
meio a tanta concorrência?
Mario Persona - Fica evidente que uma
formação em medicina é hoje condição
necessária, mas não suficiente para a prática
da profissão. O médico vai precisar viver em
modo de aprendizado contínuo, não apenas como
costumava fazer em sua área, mas precisará
conhecer novas disciplinas para interagir, por
exemplo, com físicos e analistas de sistemas em
sua prática diária. Ele vai precisar se
aprofundar no conhecimento do comportamento
humano na sociedade e cultura onde está inserido
para descobrir o que o seu cliente enxerga como
benefício.
O próprio conceito de atendimento ao cliente,
que se alastrou por todas as áreas de venda de
produtos e serviços, acabou também chegando à
medicina, e hoje o médico que continuar
atendendo seus clientes como fazia há 30 ou 40
anos corre o risco de perder seu lugar no
mercado. Os consultórios passaram de meras salas
de espera com uma pilha de revistas velhas a
verdadeiras salas de estar, com recepcionistas
treinadas, ambientes decorados por designers e
tecnologia de ponta, visando conquistar e reter
clientes. Não é apenas a habilidade do médico
que agora serve como indicador de sua
competência, mas também todo o contexto no qual
ele está inserido: sua equipe, seu atendimento,
seu consultório, seu hospital e até sua
atuação na sociedade como um todo.
O médico passou a ser também uma referência na
mídia. Com a ampliação das redes de
comunicação, antigamente concentradas nas
grandes capitais, hoje qualquer cidade de
interior tem suas próprias emissoras de rádio e
TV, e existe uma demanda por entrevistas e
pareceres de médicos sobre temas atuais. Em
oportunidades assim não basta apenas o
conhecimento técnico, é preciso saber como
traduzi-lo e comunicá-lo ao público leigo. O
médico com uma boa capacidade de comunicação
acaba conquistando também um maior espaço no
mercado.
A ética na prática médica passou a ser vital
hoje, não apenas porque os organismos
reguladores são mais eficientes, mas
principalmente porque cada cidadão tem o poder
de tornar público um atendimento mal feito, por
exemplo. Qualquer pessoa com um celular, ou até
com canetas que são também câmeras de vídeo,
pode levar para o Youtube as imagens de um
consultório mal organizado, de uma recepção
mal educada ou até mesmo de falhas em exames e
diagnósticos. Assim como está acontecendo com
qualquer empresa e profissional, o médico nunca
esteve tão exposto e vulnerável como hoje.
Como um médico pode preparar seu
negócio para o terceiro milênio, ou seja, para
o futuro?
Mario Persona - O negócio do médico
começa com ele próprio, e nem cabe aqui falar
de seu preparo técnico, pois isso é uma
obrigação. O que o médico precisa agora
agregar à sua capacidade técnica é sua
capacidade de vender sua imagem, sua competência
e seus resultados. De nada adianta ser um bom
profissional se as pessoas não souberem disso.
Não estou falando aqui de propaganda, algo que
é controlado pelo código de ética que o
médico deve seguir, mas sim do aprimoramento de
seu principal produto que é sua imagem, sua
personalidade e sua interação com seus
clientes.
Mas para isso é importante que o médico entenda
que ele não vende cura para doenças, como fazia
no passado. Hoje as pessoas estão preocupadas
com a saúde e estão mais bem informadas. Elas
não querem apenas a cura, mas querem a imunidade
à doença, e para isso pagam por dietas,
academias e suplementos que lhes garantam uma
saúde perene. Se o médico continuar pensando em
curar doenças irá perder uma grande parcela da
população que enxerga a medicina como um elixir
de vida saudável. A medicina preventiva está
crescendo e o médico deve aproveitar isso. A
preocupação com a aparência também
transformou a medicina, e hoje as pessoas não
recorrem a cirurgias plásticas apenas para
corrigir imperfeições, mas principalmente para
manter uma aparência jovem. Medicamentos já
não são vistos apenas como soluções para
enfermidades, mas também como forma de aumentar
o prazer, a saúde e a longevidade.
Essa mudança no comportamento da sociedade
também obriga o médico a mudar sua forma de
enxergar a medicina para poder oferecer o que
seus clientes procuram. Para isso ele precisa
não apenas de uma boa dose de percepção, mas
também de comunicação, para saber como se
apresentar para um mercado que já enxerga a
medicina com outros olhos. Para alguns médicos
isso causa uma certa dificuldade, pois sua
formação é técnica. O conhecimento de
marketing é hoje imprescindível, não apenas
para o médico, mas para qualquer profissional. O
médico é um profissional que atende as
necessidades e expectativas de um determinado
público, e neste sentido ele não é diferente
de um arquiteto, de um advogado ou até de um
designer de moda.
Outro detalhe importante das mudanças que
ocorrem está mais relacionado à sociedade onde
o médico atua. Em uma sociedade pouco
sofisticada as pessoas estão em busca do
básico, da matéria prima, da solução imediata
para alguma doença séria. À medida que uma
sociedade vai se sofisticando, e a informação
ajuda neste sentido, ela vai se tornando mais
exigente. Então, se antes o cliente podia se
contentar com um serviço básico, agora ele quer
enxergar sinais de modernidade, como
equipamentos, instalações etc. Ele vai exigir
também um atendimento diferenciado, um melhor
treinamento de quem atende, um relacionamento
maior e mais pessoal com o médico, e também
irá querer ser melhor informado do que está
acontecendo com ele. Daí a necessidade de uma
boa comunicação com seu cliente. Subindo ainda
mais na sofisticação da sociedade você vai
encontrar o cliente que exige tudo isso e um algo
mais, que é a experiência de satisfação.
Quando se trata de administrar o
negócio, seja um consultório ou clínica, quais
as falhas mais comuns cometidas pelos médicos?
Mario Persona - A primeira que vejo é a
incapacidade que muitos médicos têm de enxergar
sua profissão como um negócio. Não digo aqui
no sentido predatório ou mercenário, mas no
sentido de que ele está inserido numa relação
de prover soluções e benefícios, e ser pago
por isso. Afinal de contas, toda atividade que
envolve um pagamento é uma atividade comercial,
e o médico não escapa disso. Porém sua
formação é mais concentrada na técnica, o que
faz com que o profissional chegue ao mercado sem
uma idéia clara de como poderá vender seus
serviços. O médico precisa de um conhecimento
básico de marketing para saber se posicionar no
mercado. Ele deve encarar sua profissão, seu
consultório ou clínica como uma empresa, e não
apenas como um ponto de referência ou sala de
espera. Tudo o que uma empresa precisa fazer para
posicionar sua marca, seus produtos e serviços
no mercado para conquistar clientes e neutralizar
a concorrência, não deixa de ser também uma
preocupação que o médico deve ter.
Entrevista concedida aos Fascículos
Pfizer em 17/03/2009.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas frases a título de
declarações do entrevistado. Para não perder o
que eu disse na hora da entrevista, costumo
gravar ou dar entrevistas por escrito. A íntegra
do que foi falado você encontra aqui. Se achar
que este texto pode ajudar alguém, use o
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Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Veja em www.mariopersona.com.br
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