Todas as noites repito um mesmo ritual de ervas e sangue da terra. Nada macabro ou vampiresco. Meu ritual resume-se a um prato de salada e um cálice de vinho, que Plínio chamava de "sangue da terra" e Eurípides dizia servir "para acalmar as fadigas". É minha recarga de bateria no fim do dia.
Mas não culpe o álcool se achar que escrevo por mal traçadas linhas. Nunca passa de um cálice, e sempre vinho, jamais bebida destilada. O vinho é vivo, envelhece; é como um gênio da garrafa, que atende os desejos do meu paladar quando liberto.
Galileu Galilei dizia que o vinho é feito de "humor líquido e luz". Não há nada melhor para acompanhar uma salada fresca, leve e contente, e tem a vantagem de conter antioxidantes. Não me pergunte o que é, mas acho que serve para desenferrujar. Li que combatem os radicais livres. Eu também odeio radicalismos. Morte aos radicais!
Antioxidante virou moda. Uma hora é o vinho que é bom, outra hora é o café, dependendo do jabá pago pelos fabricantes aos jornais, ou do lobby nos laboratórios de pesquisa. Ontem na TV disseram que adoçantes artificiais engordam. Quase pude ver o doce sorriso dos usineiros.
Mas antioxidante deve funcionar mesmo, pois faz tempo que não vejo uma ruiva. E a lista não pára no vinho ou café. Têm o chá verde, que saiu do esquecimento do armário, e seu irmão mais novo, o chá branco, que ainda não experimentei.
Mas vou experimentar, principalmente depois que descobri que meu plano de saúde agora é "Pré-Idoso". Uma tremenda mancada da área de comunicação da empresa, que devia dar nomes mais motivacionais aos planos. Para mim "Super-Sênior" ficaria de bom tamanho.
Faz tempo que os laboratórios farmacêuticos perceberam a importância do nome. Por exemplo, descobri que o Ômega-3 que tomo agora eu já tomava na infância, quando minha mãe me fazia engolir colheradas de "Óleo de Fígado de Bacalhau" ou "Emulsão Scott".
Eu tomava a contragosto, só porque ela dizia que eu ficaria forte como o homem do rótulo, que carregava um bacalhau nas costas. Mas se chamasse Ômega-3 eu teria tomado com prazer. Que garoto não iria querer tomar um troço com nome de espaçonave?
Voltando ao remédio que acompanha minha salada, não entendo de vinho, por isso posso beber o tinto sem ficar vermelho. Mas os entendidos mandam o branco para acompanhar saladas. O que fazer? O jeito é não convidar entendidos para o jantar. Alguns são chatos demais. Quer ver?
Uns amigos fizeram um jantar e convidaram um "connoisseur", que é como os entendidos gostam de ser chamados. Começou torcendo o nariz quando viu o rótulo da garrafa.
- Nacional... - pensou alto, pegando o cálice pela base e enfiando o nariz torcido nele. Todos pensaram que ele queria beber de canudinho, mas era só para cheirar.
Depois deixou o vinho tonto de tanto rodopiar o cálice erguido contra a luz. Não fez cara boa. Tomou um gole e... parou. Não engoliu enquanto o vinho não cumprimentou cada uma de suas dez mil papilas gustativas. Aquilo não era vinho, era candidato em velório em véspera de eleição.
Após um discreto bochecho, engoliu e começou a produzir uns estalidos estranhos, enquanto o laboratório de análises clínicas de seu cérebro destrinchava o sabor. Aí veio a melhor parte.
Se você convidar um connoisseur para jantar, aproveite esta parte dos adjetivos. Esqueça a uva. Ele vai dizer que o vinho tem um bouquet misto de pimentão e ameixa. Vai falar do corpo, insinuar que é adamado, aveludado ou untuoso. Se disser que é chato, sápido ou foxado, não se preocupe. Não é contagioso.
Enquanto a comida esfriava, o connoisseur viajava no vinho e os comensais babavam na maionese. De repente saiu de seu transe e deu o veredicto. Curto e grosso. Mais grosso do que curto, em se tratando de um convidado que devia ser mais delicado.
- Deixa a desejar. Os importados são melhores. - sentenciou com olhar de desdém.
O anfitrião não se fez de rogado. Correu para a cozinha e logo apareceu com uma garrafa de vinho francês, dos caros. Só o rótulo já iluminou os olhos do connoisseur.
Enquanto os outros decidiam meter o garfo na comida fria antes que ficasse gelada, o connoisseur recomeçou seu ritual de degustação.
Nariz no cálice, rodopiada, bochecho, estalidos e adjetivos, tudo igual. Então veio um sorriso do mais puro êxtase:
- Grand vin! Magnifique! - arriscou em francês, para combinar com o rótulo.
O anfitrião ficou tinto de tanto rir.
- Que magnífico, cara? Peguei uma garrafa vazia e enchi de vinho de garrafão.
- Então deu sorte. É uma boa safra. - concluiu o connoisseur sem perder a fleuma.
O Julgamento de Paris GEORGE M. TABER Narrada pela primeira vez, esta é a verdadeira história da mítica degustação de Paris ocorrida em 1976, contada pelo único jornalista presente no evento. Nela, jurados submetidos à prova cega preferiram vinhos desconhecidos da Califórnia aos melhores da França, provocando um impacto revolucionário no mundo do vinho.
O Museu Nacional de História Americana Smithonian abriga, em sua coleção, duas garrafas de vinho: um Stag's Leap Wine Cellars Cabernet Sauvignon de 1973 e um Chateau Montelena Chardonnay de 1973. Esses foram os vinhos que venceram a hoje famosa degustação de Paris de 1976, quando um grupo de experts franceses comparou alguns dos mais famosos vinhos franceses com uma nova geração de vinhos californianos.
Eles não sabiam que aquele resultado transformaria completamente o mercado de vinho, dando início a uma idade de ouro para a vinicultura que estende o mundo do vinho para além dos sacramentados limites da França: para Austrália, Chile, América do Sul, Nova Zelândia e por todo o globo.
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Excelente apresentação, ainda estamos na fase de julgar qualquer coisa pela "capa", hipócritas são necessários para um bom desenvolvimento da humanidade, mas aos sobreviventes é primordial ter uma garrafa de vinho frances e um estoque de vinho em garrafão. Parabéns pelo sucesso! Nilxao - Adm UFF Macaé-RJ
Olá Mario Persona. Nossa que legal este texto/video Humor Liquido. É tudo o que eu estava precisando. Eo sou aluno do Curso de Turismo da unilesteMG - Ipatinga - MG. Sou um admirador de vinhos. Mas o problema é outro. Estou realizando um trabalho para a professora de Organização, Sistemas e Métodos. O nosso grupo deve falar sobre Fluxograma. Inclusive achei um interessante que é sobre as étapas de fabricação de um vinho tinto. É onde cheguei até aqui. Preciso para este trabalho de um video sobre algo legal e que englobe o tal vinho. Quando eu achei este video fiquei até feliz, mas, na faculdade não abre Youtube, como irei mostrar este video assim? Pensei, talvez você podesse o me enviar em um outro formato, ou como ele foi gravado na integra. Antes de ser exposto no Youtube. Por favor você me ajudaria muito. Espero ser respondido. Muito obrigado. E parabéns pelo sucesso.
Adorei.O texto Humor Líquido;eu também sou apaixonada por vinho ,mas também não sou grande entendedora de vinho,se ele é bom ao meu paladar é bem vindo,amo vinho tinto principalmente os suaves,parafraseando o connoisseur,tem que ter borogodóo,tem que ser muito gostoso.Bom é isso aí meu Amigo Mário. Mais uma vez ,obrigada por esse belo texto.
"Ser
alguém é ter uma história para contar."
Isak Dinesen
Curioso para
saber quem sou? Ok, você pediu. Para
poupá-lo, vou começar nos anos 70.
Após a fase mauricinho, virei hippie.
Isso mesmo. Compus, cantei e toquei em
festivais, vivi 3 anos só de
macrobiótica e vesti bata de algodão de
saco de farinha. Despojamento exterior de
um Gandhi, mas vivendo como a rainha da
Inglaterra, PAItrocinado
no conforto de um apê só meu no
Guarujá e faculdade particular em Santos.
Fim dos anos 70, desenhista, designer de
ambientes e cartunista, recém formado
arquiteto, metido em movimentos de
contracultura e volta à natureza, fui
morar no mato. Comprei um sítio após
uma tentativa frustrada de morar numa
comunidade. Onde? Alto Paraiso, GO. Foram
3 anos cantando "Refazenda",
criando carrapatos, plantando mato e
comendo arroz integral com gersal.
Foi também no fim dos 70 que nasci de
novo, após três anos errando à procura
de um sentido para a vida em filosofias
do extremo oriente. Minha procura
terminou no oriente médio e os anjos
ficaram alegres.
Voltei à civilização para continuar a
carreira de arquiteto. Tive escritório
de arquitetura, fui vendedor de materiais
de acabamento, negociador no Banco Itaú
e Cia do Metrô, editor de publicações
cristãs da Verdades Vivas, tradutor
técnico e diretor de comunicação e
marketing da Widesoft.
Dinossauro da Internet no Brasil, em 1996
criei meu primeiro site, o bilíngüe True Stories,
seguido do trilíngüe Chapter-A-Day.
Trabalhando na Widesoft, criei a
comunidade Widebiz
e ultimamente mantenho alguns blogs, como
este CAFE,
o biográfico Quero Contar
e o devocional O Pintor em Minha
Janela.
Descobri o ócio criativo e faço que
gosto trabalhando em casa. Meus clientes
nunca iam ao meu escritório nem
eu por isso decidi assumir o
modelo home-office, conectado a um
atendimento profissional, empresas
parceiras, ao meu filho Lucas Persona
e aos meus clientes.
Adotei o modelo futuro no presente.
Ao lado de minha mesa fica a poltrona de
meu filho Pedro, que passa o dia
escutando música. Quem é Pedro? Esta é
uma outra história que você encontra no
livro "Uma Luta
pela Vida",
de minha filha Lia
Persona, ou acompanhando
o blog Quero Contar
.