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29/04/2007
Yes, nós temos cana.
por Mario Persona
O Tio Sam veio aqui, chupou cana, escovou os dentes e assoviou de contente. Se antes o vizinho era o Canadá, agora vizinho é qualquer país onde cana dá. O Brasil se alvoroçou, Zé Carioca sambou e Carmem Miranda cantou: “Yes, nós temos cana!” O petróleo virou vilão.
E quem vai dizer que não? Monteiro Lobato quis defender o petróleo e pegou seis meses de cana. Mal sabia ele que um dia o país deixaria de lado “O Petróleo é Nosso” e adotaria o lema “Cana Para Todos”. A Polícia Federal já adotou e veja no que deu. Os canadólares apareceram mais rápido que os petrodólares. Tirando os morros do Rio, onde a cana é difícil de pegar, a monocultura vai tomar de assalto nosso território. O Brasil vai ficar um verde só, do Oiapoque ao Chuí. Os ambientalistas que nos vigiam pelo Google Maps vão pensar que reflorestamos a nação. Mal sabem eles que o país do carnaval virou um canavial. No interior de São Paulo, onde moro, “canaviar” é substantivo caipirês, mas aposto que vai virar verbo. Aqui está tudo canaviado. Se canaviar afeta a biodiversidade? Que biodiversidade? Aqui mel tem gosto de melado, teta de vaca dá garapa e passarinho voa em zigue-zague depois que bebe água que passarinho não bebia. No resto do país tem gente preocupada porque o João vai canaviar a lavoura do feijão. Geralmente quem se preocupa não está na pele do João. Se estivesse, também iria para onde aponta o lucro imediato, pois é assim que funciona a economia. Nosso comportamento é ditado pela demanda. Existe demanda por drogas, caça-níqueis e produtos piratas? Então a cana vai correr solta, enquanto cresce a indústria de seguros, blindagem e vigilância. Há demanda por combustível verde? Então a cana vai crescer solta, enquanto crescem as pesquisas, equipamentos e serviços de minimização do impacto ambiental. Somos assim, vivemos correndo atrás do prejuízo porque buscamos satisfação imediata. O ser humano tem olhos na frente do crânio, como o felino predador e a ave de rapina. É essa sua natureza e vocação, daí viver remendando sua saga destrutiva. Quem ainda acredita na evolução humana experimente ficar quinze minutos na Linha Vermelha no Rio meditando pela paz mundial. Em 1980 o Papa desfilou aqui em um papamóvel com carroceria anti-chuva. Em 2007 o papamóvel de 10 milhões de reais resiste a granadas e tiros de metralhadora e fuzil. O que evolui não é o homem, mas a tecnologia que nos mata e também garante nossa sobrevivência. Sim, é inevitável que a cana substitua o arroz, o feijão e o bife, enquanto o álcool sobe no ranking das exportações, hoje encimado pelo minério, soja e brasileiros mandando dólares do exterior. O minério não é renovável e a soja dá também nos EUA. O jeito vai ser exportar álcool e brasileiros, não no mesmo vôo. Não seremos os únicos em busca de alternativa. O Dubai sabe que seu petróleo tem data para terminar e corre para o turismo, enquanto o Bahrain corre para as corridas e outros esportes. Nós, quando a coisa aperta, corremos para a cana. Mas o que será da vaca quando os pastos forem canaviados? Se depender dos relatórios da ONU, a vaca vai pro brejo. Vacas flatulentas são grandes vilãs do aquecimento global. Do escapamento que trazem sob o rabo saem mais poluentes que todas as emissões de carros e fábricas do mundo. Complicou para os ativistas de botequim, que preferiam protestar contra a cana sem abrir mão do espetinho de carne e do provolone com cerveja. A cerveja fica, mas já tem gente correndo atrás de avestruz para substituir a vaca, o que não é tarefa fácil. Além disso, avestruz não dá leite. A cana não corre e é mais flexível. Já inventaram até cana geneticamente modificada para canaviar pântanos e desertos. Não demora e a cana vai parar na mamadeira. Se os argentinos conseguiram criar vacas transgênicas que produzem insulina humana, e o nordeste já faz carne do bagaço do caju, o que nos impede de inventar um alambique leiteiro? Tenho certeza de que os pesquisadores brasileiros encontrarão mais de 51 maneiras de utilizar a cana e os bebês do futuro já nascerão “flex”. Para quem a cana é uma ameaça, o jeito é encarar e mudar, não tentar evitar o inevitável. Até Monteiro Lobato, petrolista convicto, acabou desenvolvendo uma paixão secreta pela cana. Sua biografia revela que o escritor não saía de casa sem um belo pedaço de rapadura escondido no bolso do paletó.  |  | Uma Verdade Inconveniente AL GORE
O novo livro do ex-vice-presidente americano Al Gore, Uma Verdade Inconveniente: o que Devemos Saber (e Fazer) Sobre o Aquecimento Global, faz parte de seu projeto de conscientização ambiental, que inclui palestras ao redor do mundo, em que são apresentados dados incontestáveis sobre a crise climática provocada pela ação do homem no planeta, além do documentário Uma Verdade Inconveniente - Um aviso global, de grande repercussão nos EUA e no mundo político. A obra apresenta, de forma didática e envolvente, o resultado de toda uma vida dedicada à questão ambiental, cada vez mais inadiável. Com base em pesquisas realizadas por especialistas e instituições de renome, e compilando dados e exemplos no mundo inteiro, Al Gore produz uma obra eficaz de alerta sobre o aquecimento global. Narra também parte de sua trajetória de vida, focando os pontos-chave que o fizeram voltar a atenção para o ambiente. Uma Verdade Inconveniente esteve presente na lista de best-sellers dos EUA e venceu o Quills 2006, prêmio literário apoiado pela Reed Business Information e pela NBC, na categoria Histórias, Atualidades e Política.
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Respostas: 3 Pessoas comentaram. E você, qual é sua opinião?
O Brasil sempre foi um país onde imperou os ventos dos comoditis, café, soja, , etc. Dai surge convênios que deram prejuízos exorbitantes para nosso país, Taubaté é um exmplo. O que se faz notar ao longo dos anos, é que a incistente permanencia em produzir matéria prima exportadora, quanto mais uma monocultura como a cana, sempre trouxe prejuízos a longo prazo, acho que será necessário termos cuidados maiores com esse projeto, já que essa onda de ecologia pode e deve ainda não vingar no mínimo por uns dez anos. E é muito arriscado e prematuro acreditar que a cana vai resolver nossos problemas internos , que mais tem haver com corrupção e falta de políticas desenvolvimentistas.
Enviado por Michel Julierme em 05/05/2007
Bom dia Mario, tudo bom? os seus textos são ótimos, cada vez melhores, não entendo porque vc não está escrevendo em colunas para a Veja, Época, Istoé e afins.. bom, na verdade até entendo, acredito que estes veículos ainda não têm a qualidade de seus textos e suas idéias. abraços
Enviado por Juliano em 02/05/2007
O "manda-chuva" da vez, já foi o pau-brasil, borracha, café, algodão, pedras preciosas, laranja, soja e outros, que estou a esquecer. Como Colônia estamos aí ... para o que der e vier para atender nossos eternos colonizadores, como digo para minha sobrinha: "já nasceu assim, graças a Deus!" É claro os tempos são outros, não existe mais Colônias e Impérios, e sim, uns tais de mercado estrangeiro e balança comercial. A danada da balança não deixou de ser tendenciosa ... é claro, mas o novo nome para o escambo ficou mais bonito e moderno. Para finalizar vou transcrever o significado do termo colônia e fazer uma reza. "O termo colônia vem do latim, designando o estabelecimento de comunidades romanas, geralmente para fins agrícolas, fora do território de Roma". Reza: tomará que sobre algum espacinho para o plantio do arroz e feijão, não romano. Excelente texto Mario Persona.
Enviado por Mario Câmara em 01/05/2007
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