Minha maior dificuldade quando me meti a falar em público foi o sotaque. Do interior, caipira, que puxa no "R", que fala poRta, poRteira, bRoco, gRobo. Sotaque é difícil de mudar, mas a gente pode se adaptar. É só evitar falar palavras como porta, porteira e outros trens.
Basta eu ir para o Rio ou para a capital aqui pertinho e meu sotaque dói nos ouvidos (aqui a gente diz "nas orêia") dos outros, como sol (aqui a gente diz "sór") do meio-dia para quem sai de cinema escuro na sessão da tarde (aqui a gente diz "tarde" mesmo, mas de um jeito que arde). Fica logo na cara que sou do interior.
Se o guarda pede os documentos e digo que estão no porta-luva, ele logo dispara:
- O senhor é do interior, não é?
Paro num hotel, digo ao manobrista que preciso pegar algo no porta-malas e pronto! É sempre a mesma história:
- O senhor é de Piracicaba?
Não, mas sou vizinho, de Limeira, o que fica do mesmo tamanho no "R".
Uma vez liguei para uma empresa no Ceará e a menina que atendeu foi logo perguntando:
- Ô sénhorrr é do intériorrr de São Paulo, é não?
Confirmei.
- Arréconheci pelo sótaque!
Mas não é só em Limeira, Piracicaba, Santa Bárbara D'Oeste e adjacências que se fala o caipirês. No eixo que vai daqui a Ribeirão Preto, passando por Santa Rita do Passa Quatro, a maioria fala assim, puxando no "R". É onde mais se escuta frases como:
"Óia, nóis vamo descansá; num güento mais trabaiá, vamo tirá uma forga de veiz em quando, cumpadre!".
Menos em Campinas, onde o pessoal fala melhorzinho e se você perguntar se lá é interior vão dizer que não. Só que também não é capital.
Mas o território da caipirada é extenso, indo até Uberaba e Uberlândia (ou Beraba e Berlândia no dialeto local), pegando também toda a região de Bauru, até o norte do Paraná. Para o outro lado você tem a caipirada que se acha mais chique só porque mora no eixo Rio-São Paulo - Taubaté, São José dos Campos e adjacências. Não podem se esquecer de que foi de lá que saiu o Jeca.
Acho que foi aquela pureza e inocência do Jeca que serviram de inspiração quando decidi me aventurar na carreira de falar em público com sotaque e tudo. Achei que as pessoas sentiriam dó de mim, como sentem dó do Jeca, e me dariam um voto de confiança. Porque o Jeca é a imagem do sertanejo típico, cheio de inocência, de simplicidade, de desinteresse, de honestidade. Pelo menos o Jeca antigo era assim.
Com o tempo fui descobrindo outros profissionais de comunicação que estavam se dando bem apesar do sotaque. Às vezes sou até confundido com um deles, talvez pela estatura, pelos cabelos grisalhos e voz de berrante, além do inconfundível "R". É comum alguém me perguntar, depois de uma palestra:
- O senhor é parente do Milton Neves?
Não sou, não tenho qualquer parentesco com o comentarista esportivo e apresentador de TV. Mas só o fato de perguntarem já me deixou mais tranqüilo. Explico.
Eu vivia preocupado ao circular em aeroportos, de terno e gravata e maleta na mão. É que a quantidade de homens, também engravatados e de maleta na mão, que ficam me encarando nesses lugares é fora do normal. Saber que podem estar me confundindo com o Milton Neves me tranqüiliza. Acho que estão interessados mesmo é em futebol.
Antigamente eu tinha vergonha de ser caipira, depois passei a ter orgulho. Não só porque a caipirolândia é terra que gera muita riqueza, mas também por causa da cultura e da música, que virou um grande negócio quando deixou de ser caipira para virar country. Veja você, eu antes era caipira e hoje sou country! Pra que me envergonhar se ganhei até nome "ingrêis"?
Além disso, o sotaque era uma vantagem na impressão que causava nas pessoas. Certa vez uma senhora me abordou após uma palestra:
- Adorei seu sotaque. Esse sotaque caipira do interior inspira tanta confiança na gente! Faz a gente acreditar em tudo o que você diz. É que as pessoas do interior são mais simples, mais ingênuas, mais sinceras, mais honestas.
Isso foi há algum tempo. Hoje ela não diria o mesmo, com tanto caipira saindo correndo de Brasília. Eu disse de Brasília? Ingenuidade a minha! Caipira de Brasília só se for o da pamonha.
Os passos percorridos pela música caipira até ela adiquirir a feição pop dos dias atuais são rastreados neste livro que traz, no fundo, uma parte rica e substancial da história da cultura popular brasileira. O livro, que fala sobre a história da música caipira, é dividido em duas partes e tem cerca de 100 fotos. A primeira parte, a história, com todos os afluentes que banharam a música do caipira do centro sul do país. A segunda, com 16 perfis dos personagens mais importantes do gênero, de Tonico e Tinoco a Chitãozinho e Xororó.
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Eu sei exatamente do que voce esta falando. Eu moro nos Estados Unidos a 5 anos e sempre lutei para perder meu sotaque brasileiro, achava incomodo quando eu dizia um simples "hi" e a pessoa respondia: "where are you from?" Eu ficava muito constrangida. Hoje percebo que ter sotaque e um ponto positivo para a personalidade, e charmoso e muito atraente... Hoje gosto de falar ingles com sotaque nos "S" que iniciam a palavra como pronunciar "ismoke" ao invez de "s" mudo "smoke"... O "th" do "Thank you" com som de "tank you" ao invez de som de sopro que o th tem "ssss"... Fico tranquila porque afinal a maioria da populacao aqui e mesmo imigrante! Raro mesmo e americano nativo, que no caso, so mesmo o indio! Adoro ter sotaque!!!
Este texto me deixou mais tranquilo, também tenho este sotaque difícil de larrrgar, pois sou do sul de minas, onde também fala o caipira, quando morei no Paraguai os amigos me chamavam de minerrr "ôôô minerrr", e por isso ficava constrangido quando ouvia comentarios a respeito. Obrigado
Fiquei tão sensibilizado com seu texto que tomei licença de publicá-lo em nosso cantinho AMIGOS DO PEITO E DA BOLA de gente do SANTOS FC... Espero que me perdoe e não me processe por isso... [http://04029c316ec0c90306.comunidade.uolk.uol.com.br/]
O dia em que Você enjoar de café, venha tomar uns chopezinhos conosco... Independente de seu Clube de Coração, Você já é dos nossos...!!!
ABRAÇOS DA VILA MAIS FAMOSA DO MUNDOOO...!!!
Garçooommm...!!! ARREIAAA uma gelada para meu Amigo MARIO...!!!
É,o sr.está certo. È bom que ainda existam "caipiras" como o senhor. É, em Brasília tem é outro tipo de gente, principalmente entre os políticos. Hoje,mais um deles(os sabidos ) foi absolvido.Não sei aonde lí assim: "Entre o sabido e o babaca, seja o babaca. As cadeias estão cheias de sabidos".
"Ser
alguém é ter uma história para contar."
Isak Dinesen
Curioso para
saber quem sou? Ok, você pediu. Para
poupá-lo, vou começar nos anos 70.
Após a fase mauricinho, virei hippie.
Isso mesmo. Compus, cantei e toquei em
festivais, vivi 3 anos só de
macrobiótica e vesti bata de algodão de
saco de farinha. Despojamento exterior de
um Gandhi, mas vivendo como a rainha da
Inglaterra, PAItrocinado
no conforto de um apê só meu no
Guarujá e faculdade particular em Santos.
Fim dos anos 70, desenhista, designer de
ambientes e cartunista, recém formado
arquiteto, metido em movimentos de
contracultura e volta à natureza, fui
morar no mato. Comprei um sítio após
uma tentativa frustrada de morar numa
comunidade. Onde? Alto Paraiso, GO. Foram
3 anos cantando "Refazenda",
criando carrapatos, plantando mato e
comendo arroz integral com gersal.
Foi também no fim dos 70 que nasci de
novo, após três anos errando à procura
de um sentido para a vida em filosofias
do extremo oriente. Minha procura
terminou no oriente médio e os anjos
ficaram alegres.
Voltei à civilização para continuar a
carreira de arquiteto. Tive escritório
de arquitetura, fui vendedor de materiais
de acabamento, negociador no Banco Itaú
e Cia do Metrô, editor de publicações
cristãs da Verdades Vivas, tradutor
técnico e diretor de comunicação e
marketing da Widesoft.
Dinossauro da Internet no Brasil, em 1996
criei meu primeiro site, o bilíngüe True Stories,
seguido do trilíngüe Chapter-A-Day.
Trabalhando na Widesoft, criei a
comunidade Widebiz
e ultimamente mantenho alguns blogs, como
este CAFE,
o biográfico Quero Contar
e o devocional O Pintor em Minha
Janela.
Descobri o ócio criativo e faço que
gosto trabalhando em casa. Meus clientes
nunca iam ao meu escritório nem
eu por isso decidi assumir o
modelo home-office, conectado a um
atendimento profissional, empresas
parceiras, ao meu filho Lucas Persona
e aos meus clientes.
Adotei o modelo futuro no presente.
Ao lado de minha mesa fica a poltrona de
meu filho Pedro, que passa o dia
escutando música. Quem é Pedro? Esta é
uma outra história que você encontra no
livro "Uma Luta
pela Vida",
de minha filha Lia
Persona, ou acompanhando
o blog Quero Contar
.