Crônicas para ler no café

Almas Gêmeas

A sala estava imersa em um silêncio audível. Esparramados em posições preguiçosamente felinas, todos viajávamos nos livros. Quem nos visse não veria grande coisa. Um leve sorriso delineado nos lábios de um, ou um lampejo de preocupação no semblante de outro. Quiçá uma tímida lágrima ensaiando molhar um olho. E só.

Ao mais atento observador escaparia o magnífico cenário projetado nos bastidores daquelas mentes. O fragor da batalha, o frio na espinha ou o nó na garganta só eram sentidos por aquele casal e pelos dois adolescentes absortos num transe profundo. Hipnotizados pelas páginas amareladas dos ensebados volumes de Júlio Verne emprestados da Biblioteca Municipal.

A fase Júlio Verne sucedia aquela dos esgotados livros de aventuras juvenis da biblioteca da escola, nenhum deixado incólume por olhos vorazes. E precedia outras ainda melhores. Cada livro libertado do pó das prateleiras era lido por pelo menos dois membros da família. Assim garantia-se quorum para as discussões no jantar. “Você viu aquela cena em que o balão cai?”.

É claro que todos viram. Mas, ao contrário da TV, cada um viu um balão diferente, um personagem distinto e uma paisagem singular. Pois nunca são idênticas as impressões digitais de um mesmo livro na mente de diferentes leitores.

Quando lemos, estimulamos sentimentos, experiências e recordações que jazem armazenados em nosso cérebro. E acrescentamos algo a elas. É por isso que descobrimos coisas novas na releitura de livros velhos. Engraçado! Não estavam ali na leitura anterior?

Estavam. O que não estava era a cara-metade que, de boa-fé, daria as boas-vindas à recém-chegada informação. Como palavras amarradas por hífen, cada idéia que entra na mente precisa encontrar uma alma gêmea à sua espera. Para saírem de mãos dadas rumo a novas descobertas.

Invenções são assim. Na cabeça de Gutenberg, a prensa de fabricar vinho encontrou o sinete dos nobres para lacrar documentos, inspirado na antiga cunhagem de moedas, e deu à luz a imprensa. Se a inspiração veio por falta de moedas ou excesso de vinho, não sei dizer. Mas é certo que foi ele quem inventou o tipo móvel chumbado.

Boa parte da derrocada das idéias para a Internet ocorre por falta de um par na cabeça dos usuários. Outras novidades logo se sentem em casa, como o e-mail, versão rápida da boa e velha carta. Ou o bate-papo ao telefone, sucedido por “Chat”, seu gêmeo anglo-saxão.

Boas idéias e bons negócios precisam encontrar um eco perceptível na mente dos clientes. Por esta razão e-books para download são oferecidos sob a foto de uma capa que nunca existiu. Tenta-se buscar na intangível mente do cliente uma imagem tangível para um produto etéreo. Pois é nos bastidores da mente do cliente que está o sucesso latente.

Muitas idéias morrem prematuras por nascimento, e só ressuscitam anos depois. É o caso da música on-line. Não começou na Internet. Em uma carta enviada a um cliente, Thomas Edison parece referir-se ao sistema, ao escrever: “Irá demorar um pouco até eu ter um telefone para conversação para ser vendido na Europa, mas se quiser um telefone musical, tenho para pronta entrega”.

Thomas Edison chegara cedo demais. Eu e minha família também, quando decidimos ir à Bienal Internacional do Livro, em São Paulo. Como bons caipiras, a viagem à capital foi programada com antecedência, os detalhes repassados, as listas de títulos a comprar discutidas.

E na hora da partida, ninguém se esqueceu dos agasalhos ou da garrafa de água. A partida foi dada com a célebre frase: “Todos já foram ao banheiro?”. Só erramos a data. E desembarcamos, surpresos, diante do pavilhão de uma Bienal que só aconteceria seis meses depois.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja em www.mariopersona.com.br

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