Quase enganosa
por Mario Persona



Quando vi o site do hotel na Internet fiquei animado. Já podia me enxergar ali, largado à beira da piscina, a dois passos da praia, e comendo metade das espécies de peixes e crustáceos do Atlântico ao som do pipocar do gás da cerveja. Não foi bem assim.


Se visitar o site de um hotel na Internet, desconfie. Com a lente correta e algum conhecimento de Photoshop, qualquer garoto é capaz de transformar a marginal do Rio Tietê, em São Paulo, em avenida beira-mar. É o que chamo de propaganda quase enganosa. A realidade é mesmo aquela, só que distorcida pela lente do artista.

Nunca me esqueço do evento de uma semana em um hotel que a empresa que eu atendia contratou pela Internet. No site, a sala de convenções parecia o estádio do Maracanã, graças às fotos com lente olho-de-peixe. Uma vez lá, foi difícil manter naquela lata as cento e poucas sardinhas participantes.

No caso do hotel de onde escrevo, só descobri que era uma pousada quando cheguei aqui. Algumas pousadas são organismos vivos, que nascem de uma pequena casa e crescem graças ao transplante de cômodos e casas vizinhas. Tenho um palpite de que daqui a cem anos esta será comparada a uma obra de Gaudí, como o templo da “Sagrada Família” de Barcelona, tamanha a variedade de ladrilhos, pisos e azulejos.

O site que me trouxe até aqui criou em mim a falsa impressão de que ficaria hospedado em uma vila no Mediterrâneo, com as ondas batendo sob a janela de um quarto com vista para o mar. Tudo o que consigo ver são quintais e cachorros que não param de latir. No site havia uma foto do hotel bem ao lado dos iates da foto de uma marina local. A foto dos feios quarteirões que separam uma coisa da outra não estava lá.

No apartamento tudo é improvisado, até os quadros. Assim que entrei fui tomado por um sentimento de nostalgia e imediatamente me lembrei dos natais dos tempos de criança. Não, não são quadros de paisagens natalinas, mas apenas pedaços de papel de presente emoldurados. Você deve conhecer, desses que mostram instrumentos de navegação, cachimbos, bússolas, mapas antigos e coisas do tipo.

Há vantagens, porém. Eu quase não sinto o cheiro de esgoto que sai da pia e dos ralos do banheiro, graças à naftalina. As bolinhas estão em toda parte. Meu medo é sair daqui viciado e a família me internar em uma clínica de desintoxicação.

A cidadezinha litorânea é minúscula, mas não se iluda achando que isso significa tranqüilidade. Um trem de carga atravessa o lugar a poucas quadras do hotel, e tantas quantas são as ruas que os trilhos cortam, tantos são os apitos que ele dá de dia e de noite.

Mas é claro que o trem não passa o tempo todo. Nos intervalos entra o som dos candidatos a vereador em plena campanha eleitoral. Como a cidade é pequenininha e só escuto um candidato de cada vez, acredito que os carros tenham combinado sair como fazem nos sambódromos, um a um, para evitar misturar as propagandas. Ou então a cidade só tem um carro de som para preencher as lacunas entre os apitos do trem.

O hotel não serve refeições, por isso comi um peixe no primeiro lugar que encontrei. Minha impressão é que aquele peixe era reincidente e tinha sido frito duas ou mais vezes. No alto falante do lugar o Roberto cantava “Eu voltei”. Eu sei que existe uma campanha para não comermos peixes em extinção, mas será que ela inclui os extintos? Começo a achar que esse peixe vai voltar à noite para me assombrar.

Minha preocupação com o peixe se agravou quando voltei à pousada e decidi procurar na Internet informações sobre a cidadezinha. Sabe como é, não vi nada de interessante, mas pode ser que eu tenha perdido alguma coisa ao atravessar o lugar em cinco minutos caminhando a passos lentos.

Encontrei um site de informações turísticas que falava das duas ou três atrações do lugar:

“Quando estiver na cidade, escolha um dos muitos quiosques instalados no cais para petiscar um peixinho frito. Para fazer a digestão, visite a igrejinha de Nossa Senhora…”

É, definitivamente vou ter problemas com o peixe.

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Marketing de Turismo – Victor Middleton
Esta terceira edição da obra explica os princípios e a prática de marketing em suas crescentes aplicações na indústria do turismo global. Com base no sucesso das edições anteriores, os autores revisaram totalmente o texto a fim de apresentar as mudanças na indústria de viagens e turismo no século vinte e um, especialmente as oportunidades e ameaças surgidas com a Tecnologia da Comunicação e Informação (ICT).
Visando refletir seu alcance internacional, o conteúdo e as diversas ilustrações do livro foram escolhidos por suas aplicações mundiais. Dentre os estudos de cases internacionais específicos, destacamos: As Ilhas Baleares, Hotéis econômicos (Travel Inn), Timeshare (RCI Europa), Micro-empresas e o papel da Internet nas estratégias internacionais da NTO.