Vagamente oportuno
por Mario Persona



Na TV os noticiários apontam para baixo. Os sete anos de fartura do Egito norte americano terminaram e, ao contrário do que fez o José do Egito dos faraós, a turma do George se esqueceu de poupar para a carestia que virá.


Uns perdem, outros ganham. Aquela que foi a ruína para muitos povos do mundo antigo foi a gênese de Israel. Curiosamente, enquanto escrevo as bolsas do mundo despencam e a de Tel-Aviv sobe. Será que entendi errado o gráfico? Pode ser. De qualquer modo tenho certeza de que daqui pra frente tudo vai ser diferente.

Os comentaristas e economistas se revezam tentando explicar o que vai acontecer. Alguém sabe? Presidentes prometem que medidas serão tomadas. Vão começar pelo busto, pela cintura ou pelo pescoço? O telefone dos consultores que mandaram os norte-americanos poupar para a aposentadoria comprando ações de empresas centenárias não atende. O pessoal que faz horta orgânica está correndo de pá e carriola para Wall Street. Dizem que lá tem um touro que produziu um bocado.

Enquanto os alemães saem para comprar cofrinhos residenciais, os britânicos perguntam onde foi parar o dinheiro que depositaram na Islândia, país que fica em cima de um vulcão, tem uma população igual à de Caucáia no Ceará e um PIB menor que o rombo de seu sistema bancário. Já que em inglês Islândia é Iceland, meu palpite é que o dinheiro está no freezer.

O mundo inteiro põe a culpa em Dona Ganância, que mora entre o México e o Canadá, mas ninguém quer admitir que desfrutou de sua companhia. Seus gigolôs grisalhos, que até outro dia ocupavam as capas das revistas com títulos de CEO, devem voltar a aparecer nelas na condição de réus.

Aqui o consulado dos EUA faz mutirão para emitir vistos, e eu me pergunto se é urgência de fazer caixa. Lá a campanha presidencial segue ao som de “Caminhão na Banguela”, e ambos os candidatos à Casa Branca prometem ter a solução para o problema. Por que não elegem os dois?

No intervalo do noticiário da CNN entra o patrocinador do quadro “Inside Africa”, um banco da Nigéria, convidando os investidores a migrarem para lá. Não, não tem nada a ver com aqueles e-mails que você recebe prometendo parceria na herança de um ex-dignatário africano. É coisa séria e a África promete. Como promete o Brasil.

Que loucura, de repente me sinto no país mais seguro do mundo, com um sistema bancário que não se deixou corromper, e com um dos maiores mercados internos do futuro. Será que o futuro chegou? É o que dizem. Quem sabe agora os investidores brasileiros aprendem que a grana do vizinho não é mais verde e decidem investir aqui.

Toda crise gera oportunidades e acaba virando uma dança das cadeiras. Numa crise mundial até as cadeiras desaparecem, mas sempre tem alguém atento para perceber isso e fabricá-las. Se alguma empresa daqui vai quebrar? Vai. As que funcionavam com a versão antiga do mercado e não rodam a versão nova vão travar. Outras irão ocupar seu lugar.

Uma empresa me consultou sobre uma palestra para incentivar seus vendedores a enxergarem as oportunidades que irão surgir quando seu principal concorrente desaparecer. Isso é o que eu chamo de ficar de olho nas oportunidades.

Não se preocupe, nessa hora não vou fazer discurso motivacional ufanista, desses que falam do verde de nossas matas, do azul de nosso céu, do amarelo de nosso ouro e do branco… O que era o branco mesmo? O momento é de humildade e de caminhar sobre ovos, mesmo na busca por oportunidades. Por isso coloquei o título “Vagamente oportuno”.

Afinal, a Bovespa daqui também está caindo, apesar de nosso presidente ter declarado há alguns dias que a crise dos EUA ainda não tinha atravessado o Atlântico. Pelo jeito agora atravessou, mas tenho uma dúvida. A crise fez esse caminho por estar desnorteada ou porque o Brasil agora fica na África?

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O Boom e a Bolha: os Estados Unidos na Economia Mundial – ROBERT BRENNER

“Em O BOOM E A BOLHA, Robert Brenner analisa como a economia globalizada e seus poderes dominantes formataram um ao outro. Com argumentação saborosa e solidez acadêmica, Brenner aponta a fragilidade da atual linha de comportamento do capital, tomando por base as crises financeiras que abalaram a Coréia do Sul, Rússia e Brasil, no final de 1998.

Tudo teria começado com a competição de rivais de indústrias americanas, baseados na Alemanha e no Japão, e fundamentado com níveis absurdos de empréstimos e supervalorização no mercado de ações. Um esquema que contou com a cortesia de dinheiro fácil, disponibilizado pelo Federal Reserve e operações de compra e recompra de ações entre as corporações dos Estados Unidos.

Um período de constante crescimento econômico nos Estados Unidos parecia salvar a situação contra todas as expectativas. A aparência desta missão de resgate americana foi tão impressionante que proclamou-se o advento de uma ´Nova economia´, trazendo um novo paradigma de crescimento ilimitado e harmônico. Mas este sistema nunca se livrou da síndrome da superprodução, que continua a afligir a economia global.

Quando a recessão impôs-se como fato consumado, o entusiasmo com os start-ups da internet foi reavaliado como uma onda passageira, e as ações das empresas de alta tecnologia despencaram. Mesmo assim, os especialistas ainda estão longe de entender o que realmente motivou este boom, porque este boom tornou-se uma bolha e porque a bolha murchou.