Se todo mundo pensa assim… tou fora!
por Mario Persona



Verdade ou lenda, não sei. George Soros ou Warren Buffett? Não me lembro. Mas a história que li era de um investidor. Ou não? Bem, não importa, o que vale é a mensagem, ainda que o fato seja tão real quanto um sonho meu.


No elevador um desses investidores ouviu o ascensorista comentar: “O negócio agora é comprar ações de empresas ponto-com”.

O investidor saiu do elevador e imediatamente vendeu suas ações ponto-com. “Quando até o ascensorista sabe que ações comprar, é hora de vender” — teria dito ele. Logo depois a bolha das empresas ponto-com estourou.

Segundo Warren Buffett, “uma pesquisa de opinião pública não substitui o pensamento”. Segundo eu mesmo, “se você for a Maria-Vai-Com-As-Outras vai acabar se casando com o João-Ninguém”. Fuja da moda, do consenso, do lugar comum. Ele é comum demais para valer a pena estar lá.

Se quiser que sua empresa continue fazendo o que sempre fez e deu certo até aqui, trate bem quem sabe trabalhar em equipe e mantém o bonde nos trilhos. Se quiser que um dia ela deixe de ser bonde e vire trem-bala, trate melhor aquele visionário que não se encaixa no grupo.

É claro que sou suspeito em afirmar isso porque eu mesmo nunca fui muito de equipe. O único esporte que pratiquei foi natação, minha paixão desde a infância foi desenhar, meu hobby de adolescente era o aeromodelismo e o que mais faço hoje é escrever. Nada disso funciona em equipe. Então a equipe não é importante?

Claro que é. Veja a orquestra, é um trabalho de equipe. Agora tente colocar uma equipe de maestros para dirigi-la para ver se funciona. Ou peça que a orquestra toque uma composição criada em consenso pelos melhores músicos do mundo. Não existe tal partitura.

A singularidade da criatividade humana não é medida pelo IBOPE. Opinião pública é opinião média, quando não é burra. Quanto mais gente envolvida numa criação, maior o nivelamento pela média ou, o que é pior, pelo consenso que geralmente nivela por baixo.

Algumas eleições são assim e se você às vezes fica decepcionado com a democracia é porque ainda não entendeu que decisão majoritária não é sinônimo de decisão inteligente. O “chapéu pensador” do Prof. Pardal é individual.

Alguém comentou que Chuck Noland, o personagem vivido por Tom Hanks no filme “O Náufrago”, consegue sair da ilha sozinho, usando apenas um pedacinho de plástico que sobrou do avião para a vela de sua jangada. Já um montão de gente da série “Lost” continua encalhada na ilha, apesar de terem metade de um avião na praia, computadores em cavernas e sabe lá mais o quê.

A série de 117 episódios vai se arrastar até maio de 2010 e eu não ficaria surpreso se, no final, apenas um conseguisse escapar. Alguém poderá argumentar que o Tom “Chuck Noland” Hanks não estava sozinho: ele tinha seu fiel amigo Wilson, a bola. Pois é, e o Wilson nunca deu um palpite.

O problema de seguir a maioria é que a maioria se contenta com pouco. A maioria sempre tem sua visão estreitada pelas necessidades prementes — noves fora, sempre voltamos às necessidades básicas do comer, vestir e se divertir.

A visão ‘holística’ (use esta palavra para impressionar seus amigos), ou a ‘big picture’ (use esta também) é perdida quando estamos no meio da multidão. Por mais que você tente ficar na ponta dos pés, se estiver na multidão não verá o que existe lá na frente. É só quem está na periferia, fora da multidão, que enxerga longe.

Quando você abre mão de sua capacidade singular de intuir, pensar e decidir, acaba se sujeitando à maioria (“Se é para o bem de todos…”), ao consenso (“Satisfazendo gregos e troianos…”) ou à sorte (“Vamos tirar no palitinho…”).

Durante uma execução, decidida por uma maioria, quatro soldados repartiram as roupas do condenado em quatro partes iguais, por consenso. O que não deu para repartir foi decidido por sorteio. Saíram dali satisfeitos com alguns trapos, mas sem Jesus.


POSFÁCIO

Tudo isso aí não é sabedoria minha, mas um bordado com linhas de diversas cores. A mais forte delas encontrei em um blog, “Creating Passionate Users”, que infelizmente agora está parado porque sua autora, Kathy Sierra, foi ameaçada de morte por suas idéias saírem da… sabedoria convencional das multidões! Traduzi algo que encontrei lá:

Inteligência Coletiva X Burrice Coletiva

Inteligência Coletiva (IC) é um monte de gente escrevendo suas opiniões sobre livros no site da Amazon.

Burrice Coletiva (BI) é um monte de gente colaborando em um wiki para escrever um livro coletivo.

IC são todas as fotos no Flick, tiradas por pessoas individualmente, e as novas idéias criadas com essa fotos.

BC é esperar que um grupo de pessoas crie e edite uma foto juntos.

IC é receber input e idéias de muitas pessoas e perspectivas diferentes.

BC é medir cegamente o input médio de muitas pessoas e esperar algo de excepcional.

IC é uma comunidade votando e discutindo sobre camisetas pintadas por pessoas individualmente.

BC é esperar que uma comunidade pinte as camisetas juntas, como um grupo.

Arte não é feita por comitês. Os grandes projetos não são criados por consenso. A verdadeira sabedoria não é encontrada nas multidões. Pelo menos não quando as multidões tentam agir como uma única entidade.

Evidentemente sabedoria em muitos desde que você não contamine os muitos fazendo com que concordem (votar não significa concordar). De acordo com Surowiecki (autor de “A Sabedoria das Multidões”), até mesmo quando você compartilha conhecimento demais com seu grupo isso já é suficiente para corromper a sabedoria e emburrecer o grupo.

São os extremos, as lacunas e as diferenças no conhecimento individual que fazem a sabedoria das multidões funcionar, todavia a visão equivocada da Web 2.0 é exatamente o oposto — vamos todos colaborar e nos comunicar e conversar juntos como uma grande “coisa” colaboradora, comunicadora e conversadora até que nossas diferenças individuais se tornem superficiais.

Imagine uma comunidade — digamos do tipo Sociedade dos Amantes de Cães — que por alguma invenção genética seja capaz de projetar o cão perfeito. Todos vão contribuir. Todas as idéias serão levadas em consideração. O cão será a perfeita expressão da sabedoria de uma multidão de amantes de cães. Como vai sair esse cão? Um Cão Genérico ou um Frankscão?

Vejo duas possibilidades:

1) Um Cão Genérico — a média de todos os atributos possíveis a um cão. Ele vai se parecer com aqueles cães abstratos usados em cartilhas para você ensinar uma criança a apontar o dedo e dizer: “Cão”.

ou

2) Um Frankcão — uma horrível colcha de retalhes de pedaços de cães que JAMAIS foram projetadas para estarem juntas. Seria algo parecido a um acidente com o transponder de Jornada nas Estrelas.

por Kathy Sierra

Dogs

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A Estratégia do Oceano Azul
W. CHAN KIM & RENEE MAUBORGNE


O livro apresenta uma nova maneira de pensar sobre estratégia, resultando em uma criação de novos espaços (o oceano azul) e uma separação da concorrência (o oceano vermelho). Os autores estudaram 150 ganhadores e perdedores em 30 indústrias diferentes e viram que explicações tradicionais não explicavam o método dos ganhadores. O que eles acharam é que empresas que criam novos nichos, fazendo da concorrência um fator irrelevante, encontram um outro caminho para o crescimento. O livro ensina como colocar em prática essa estratégia. O livro também defende a idéia de se abandonar os “oceanos vermelhos” da “sabedoria” popular e se aventurar nos oceanos azuis da inovação. Competir fora do espaço estreito delimitado pelo mercado, parar de se concentrar na concorrência, evitar explorar tão somente a demanda atual é deixar de ficar brigando pelo osso que todos querem roer.