Três reais
por Mario Persona



O táxi que me levava ao aeroporto era dirigido pela tartaruga em pessoa. Não que o motorista fosse lento. Não era. Apelidei-o de ‘tartaruga’ só por ser enrugado e vivido.


E também por lembrar a tartaruga da fábula de Esopo, “A lebre e a tartaruga”, recontada por La Fontaine, onde não é a autoconfiança que vence, mas a perseverança que vem do reconhecimento das próprias limitações. O motorista era assim. Velho e calejado de erros que não se preocupava em esconder.

De vez em quando faz bem encontrar alguém consciente de suas próprias falhas, de seus limites, e que não acredita tanto assim em si mesmo. Não, você não vai ouvir de mim a frase “acredite em si mesmo”. Acreditar mesmo, só em Deus, que não pode falhar.

Todas as vezes que me empolguei e acreditei em mim mesmo descobri depois que eu estava mentindo para mim com o objetivo de me manipular. Acha estranho? Quando você se vir frente a frente consigo mesmo vai entender.

Depois de uma certa idade a gente começa a aprender o que é o ser humano — e mais particularmente o ‘eu humano’. Começa a entender que covardia, miopia, orgulho e mentira são acessórios que vêm de fábrica, prontos para usar. Qualquer pessoa tem potencial para falhar.

O problema é que tentamos nos convencer de que não falhamos e — já que em todo crime sobra um corpo — passamos a nos explicar e a procurar alguém para culpar, na tentativa de tirarmos o corpo fora.

Quando vira hábito passamos a vida procurando alguém pior para podermos nos comparar. Então o que bebe explica que não toma drogas, o viciado avisa que não rouba e o ladrão diz que não mata. Vai me dizer que você nunca se explicou assim?

Um pouco antes de entrar no táxi eu tinha trocado alguns minutos de prosa com alguém com o mesmo número de anos daquele motorista, mas que enxergava um mundo onde todos erravam, menos ele. Não que o motorista pensasse o contrário ou achasse todo mundo bom, menos ele. Na verdade ele não nutria ilusões acerca de pessoa alguma, ele incluso.

Ex-policial, contou do tempo em que era mandado participar, à paisana, de manifestações. Seu papel era distribuir bombinhas para assustar os cavalos da polícia e instigar manifestantes pacíficos a ficarem violentos. O objetivo? Fazer o pau comer para justificar o cassetete amplo, geral e irrestrito. Evidentemente ele saía antes.

Em outras ocasiões infiltrava-se em reuniões de manifestantes para descobrir quem estava patrocinando, só para descobrir o próprio governo por trás da manifestação daquele bando de manipulados que acreditava fazer oposição.

E foi depois de confessar que cumpria ordens das mais imorais, que contou ter transportado, no dia anterior, um passageiro costumeiro naquele trajeto até o aeroporto. Quando o passageiro — um advogado do tipo lebre, apressado e autoconfiante — reclamou da corrupção, o calejado motorista retrucou que corruptos todos somos.

Do alto de seus 26 anos de idade, o pequeno doutor se defendeu afirmando ser incorruptível, de reputação ilibada, lisura profissional imaculada, lhaneza no trato, e mais uma dúzia de adjetivos que mais se atribui quem menos tem.

Antes que o motorista pudesse explicar por que considerava todos — inclusive a si próprio — corruptíveis, tinham chegado ao destino. Depois de receber pela corrida, o motorista entregou ao advogado um cartão com uma sugestão:

— Ao invés de chamar a Central de Rádio-Taxi, da próxima vez ligue direto para mim que vai economizar três reais, que é o que a central está levando nesta corrida. A gente faz o negócio por fora e a Central nem precisa saber.

— Ótimo, vou fazer isso — respondeu o advogado interessado — É sempre bom economizar algum.

— Bem, agora que já o convenci a chutar a Central para escanteio, como eu estava dizendo, que todos somos corruptos não resta dúvida. O que varia é o preço. No seu caso, três reais. Tá muito barato, doutor.

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O evangelho maltrapilho
Brennan Manning

Normalmente você vê aqui livros de negócios, comunicação e marketing, a maioria dos quais nunca li mas ouvi falar e copio o comentário do site da editora. Hoje vou abrir uma exceção para um livro cristão que li de um só gole. O autor é um ex-frade católico e alcoólico em recuperação. Pois é, um fracassado segundo os padrões de alguns. Mas é justamente disso que ele fala, que o céu é um lugar cheio de fracassados. Se está atrás de um livro motivacional para inflar seu ego, esqueça este.

Numa época de jactância, quando tanta gente quer ser “poderoso”; quando igrejas ficam cheias de gente atrás de milagres, dinheiro e poder; quando fiéis são contados em milhões e dízimos carregados em malões; quando fica essa rasgação de seda, de “reverendo” pra cá e “doutor em divindade” pra lá, alguém precisa lembrar que “graça” é favor imerecido, dado a quem não tem e não pode coisa alguma.

O livro é um banho de kryptonita, aquela pedra verde que drenava os poderes do Super-Homem, no ego e orgulho daqueles que pensam que vão conseguir o favor de Deus porque fizeram algo de bom. Pessoas que se esquecem de que o céu vai ficar cheio de pessoas vazias; que vai ser um sucesso porque vai estar cheio de fracassados. Como milhões de “madalenas prostitutas”, “pedros negadores”, “mateus publicanos”, “ladrões da cruz ao lado” e “paulos guarda-objetos de apedrejadores de estêvãos” que já se mudaram para lá.

O livro lembra que não são crianças boazinhas que vão para o céu, mas crianças más que serão arrastadas para lá. Como o filho pródigo, que só voltou porque o estomago não agüentou, ou a mulher flagrada em adultério (já percebeu que, do flagrante, só levaram a mulher?), que só foi absolvida porque foi arrastada até a presença de Jesus por seus acusadores. E você, vai querer chegar lá por algo que fez ou vai se deixar arrastar pela graça de Deus? Ser pecador é a única condição exigível para a viagem e no passaporte o carimbo diz “Salvo por Graça”, marcado com tinta-sangue do Cordeiro de Deus.

Mas, voltando ao livro, cabe um P.S. aqui na forma como a editora apresenta o autor: “o aclamado filósofo e teólogo cristão Brennan Manning”. Pelo jeito quem escreveu o comentário não captou a mensagem do livro…