Shakespeare apaixonado
por Mario Persona



DIA INTERNACIONAL DA MULHER Meu novo livro está sendo traduzido para o inglês antes mesmo de sair em português. A razão? Experimentar o sistema de impressão e distribuição on demand. Se tudo der certo, você poderá comprá-lo em dólares, na Amazon.com, pelo dobro do preço que pagaria aqui. Frete é um problema. Língua é outro, se você não entender inglês.


Contratei um tradutor para fazer a versão, pois, apesar de eu traduzir inglês-português, a regra manda que a versão seja feita por um nativo no idioma destino, neste caso, o inglês. Mesmo assim, precisei reescrever algumas partes, mudando meu raciocínio para o inglês enquanto escrevo. É que boa parte da bagagem de nuances, trocadilhos e insinuações que carrego em meus textos acaba extraviada na viagem ou é confiscada pela alfândega quando vai para o exterior.

Por isso começo a dar razão à hipótese de Sapir-Whorf, que diz que nossa forma de pensar e interpretar o mundo exterior é resultado de nossa língua natal. Pessoas de diferentes idiomas raciocinam de diferentes maneiras e chegam a conclusões diversas. Por exemplo, li em algum lugar que em mandarim não existe o subjuntivo, que permite fazer suposições como, “se eu soubesse mandarim, seria capaz de afirmar isto com plena certeza”.

Se for verdade, então os jornalistas chineses não saberiam escrever como os brasileiros. Aqui o pessoal da redação se esquiva de processos com frases como, “Se o deputado fulano fosse condenado pelo crime que supostamente cometeu, cumpriria pena, caso não estivesse protegido pela imunidade parlamentar”. Ninguém disse que o deputado será condenado, que cometeu um crime ou que cumprirá pena. É só uma suposição. A única certeza é a impunidade, quero dizer, imunidade.

A teoria de Sapir-Whorf traz conseqüências interessantes. Segundo ela, os idiomas seriam os responsáveis pelo pensamento e comportamento de seus povos. Os alemães seriam mais precisos e racionais, enquanto os latinos seriam mais emotivos e sentimentais. Isso é fácil de confirmar. Você consegue imaginar Rodolfo Valentino ou Don Juan fazendo o mesmo sucesso com as mulheres falando em alemão? Nein!

Nunca ri de uma piada que alguém me contou em japonês ou me emocionei com algum poema que li em bengali, o que me leva a concluir que esses povos também não servem para contar piadas ou escrever poesia. Mas entendo uma conta feita por um indiano, o que confirma a aptidão desse povo pelo cálculo, e evito comprar de alguém que fale árabe, com medo do resultado em minha carteira. Foram os árabes que inventaram o zero.

O inglês não reconhece o mundo feminino das coisas inanimadas. Bem, pelo menos foi o que a professora me ensinou no curso básico, que “she” só valia para humanos e, excepcionalmente, para a Lassie e outros animais. O resto é “it”. No inglês, coisa é coisa, gente é gente. Bem, é claro que existe a licença poética, que permite usar “she” para coisas inanimadas, apesar de você não poder usar “it” para mulheres desanimadas. Mas não é a regra, é licença. Nas línguas latinas não precisamos pedir licença para chamar uma flor de mulher, ou o contrário.

Para nós, flor não é “it”, é “ela”. Só ela pode expressar toda a maciez e fragilidade de suas pétalas. Só ela nos seduz com a fragrância de seu perfume, o verde caimento de suas folhas e a cintura do seu caule. Dela é a doçura que atrai colibris, o balanço que revela a brisa e o misterioso desabrochar. Ela alegra o momento, transforma em ramalhetes os gestos de amor e suas pétalas são lembranças perpétuas, guardadas entre as páginas dos livros e diários apaixonados. Diante dela, qualquer um se sente um inseto inebriado pelo seu néctar.

Mas de quem estou falando, afinal? Também da Lua, da poesia e da música, que Andrea Bocelli cantou como se fosse… ela!

“Vivo per lei che spesso sa
essere dolce e sensuale
a volte picchia in testa ma
è un pugno che non fa mai male;
vivo per lei lo so mi fa
girare di città in città
soffrire un po’ ma almeno io vivo.”

Ah! o que seria da poesia, do amor e da paixão sem a latinidade? O que seria da literatura inglesa, se não fosse pelo italiano Masuccio Salernitano, autor de “Mariotto and Giannozza”, adaptado por Luigi da Porto para “Giulietta e Romeo”? Sem eles não haveria um Shakespeare apaixonado, só um Shakespeare desempregado.

resenha resenhas resumo resumos livro livros crítica críticas opinião opiniões literatura literaturas comentário comentários

Shakespeare Apaixonado
GWYNETH PALTROW, JOSEPH FIENNES, GEOFFREY RUSH, COLIN FIRTH, BEN AFFLECK, JUDI DENCH
Londres, 1593, a cena cultural ferve. Um jovem escritor passa por uma crise de inspiração. William Shakespeare (Fiennes) é seu nome, e sua missão é fazer uma peça de sucesso para resolver as dificuldades financeiras de sua trupe. Seus problemas só terminam quando ele se apaixona por uma bela aristocrata (Paltrow). Desse envolvimento, nasce uma das mais belas histórias de amor de todos os tempos: Romeu e Julieta. Filme vencedor de 7 Oscars, inclusive o de melhor filme, atriz e atriz coadjuvante.