Meu pai não era o McGuyver
por Mario Persona



Meu pai sempre me surpreendeu. Dono de uma habilidade ímpar para contar histórias era também mestre na arte de encontrar soluções simples para problemas do dia-a-dia.


Seu hobby era inventar. Nada que levasse o homem à Lua ou curasse o câncer, mas soluções simples, feitas com coisas simples, para atender necessidades às vezes complexas. Como uma cadeira de rodas dobrável, feita com cantoneiras de ferro, rodas de bicicleta, madeira e lona. Fabricou umas vinte delas na garagem, só para dar asas à imaginação e rodas a paraplégicos carentes.

Se eu ainda fosse criança quando o seriado passou na TV, teria acreditado que a profissão de bancário de meu pai era só fachada de sua identidade secreta: McGyver. Isso mesmo, aquele capaz das mais incríveis façanhas usando as soluções mais simples. Por exemplo, vedar um vazamento de ácido sulfúrico com uma barra de chocolate, fabricar uma lupa minúscula com uma argolinha feita de fio de cabelo e vinho branco, ou um detector de mentiras usando um medidor de pressão arterial e um despertador.

Se meu pai parecia o McGyver isso era meramente por hobby. Ele não precisava criar, mas para ele, criar era tão natural quanto respirar. Seu emprego não exigia grandes idéias e talvez fosse a monotonia bancária que o fazia assumir uma nova identidade quando chegava em casa. Muita coisa mudou de lá para cá.

Ninguém mais sobrevive profissionalmente se não for criativo, se não gerar idéias. Mas será que existe criatividade em equipe? Equipes são boas para desenvolver uma idéia que alguém teve ou construiu sobre outras idéias individuais da equipe, de pessoas que construíram… a equipe é uma sucessão de espelhos ad infinitum.

Veja o que John Steinbeck escreveu sobre criatividade em 1952 em seu romance “East of Eden”:

“Nossa espécie é a única criativa, e ela possui o único instrumento criativo, o espírito e a mente individuais de um ser humano. Jamais algo foi criado por dois homens. Não existem boas parcerias, sejam elas na música, arte, poesia, matemática ou filosofia. Uma vez que o milagre da criação tenha ocorrido, o grupo pode construir e expandi-lo, mas o grupo nunca inventa coisa alguma. A preciosidade está na mente solitária de um homem”.

Em seu excelente texto “The Dumbness of Crowds” em seu excelente blog “Creating Passionate Users”, Kathy Sierra cita James Surowiecki, autor de “A Sabedoria das Multidões”, como tendo dito que “enquanto formigas ficam mais inteligente à medida que o número de colaboradores aumenta, humanos ficam mais burros”. A idéia é que equipes só conseguem produzir idéias medianas, enquanto indivíduos são capazes de idéias extraordinárias.

Mais ou menos como disse Ariano Suassuna em entrevista ao “Almanaque”: “Eu leio muito, mas só literatura. As revistas me dão até um pouco de agonia na cabeça. Não gosto muito, não. A maioria é de uma frivolidade muito grande, não me interessam. Tenho horror ao chamado ‘gosto médio’. Prefiro o mau gosto ao gosto médio. E a maioria das revistas é feita buscando esse maldito gosto médio.”

McGyver era um que tinha a idéia e às vezes era ajudado por outras pessoas na hora de colocar em prática um novo uso para coisas velhas. Mas a idéia de olhar para as possibilidades além da utilidade evidente e usual de um objeto era só dele.

Mas nisso nem meu pai e nem o McGyver ficam com o prêmio de inventividade. O prêmio vai para dona Helena, nossa cozinheira de muitos anos. Ela já estava idosa quando o marido faleceu. Naquele tempo velava-se o corpo na sala da casa e o velório teria sido um sucesso, não fosse pelo defunto usar peruca.

Você adivinhou — a peruca escorregou. Mas não escorregou uma vez. Foram tantas, madrugada adentro, que acabou mudando a rotina do velório. Todo mundo ficava de olho na peruca, tentando adivinhar quando seria a próxima escorregada. E ela escorregava. Nem meu pai, sentado ao lado da viúva, nem todas as pessoas na sala, foram capazes de encontrar uma solução criativa.

Cansada de esperar pelo McGyver, Dona Helena decidiu tomar a iniciativa de encontrar uma solução criativa para o deslizamento da peruca. Pediu a todos que deixassem a sala por alguns minutos e ficou a sós com o finado. Na volta a peruca estava lá, firme e permanente, para alívio de todos. Meu pai cochichou para dona Helena a pergunta que todos queriam fazer:

— Como foi que a senhora fez? — perguntou, curioso.
— Simples. Uma tachinha. Deu dó, mas morto não sente.



POSFÁCIO

Que pena, descobri que meus 5 livros livros estão esgotados. Bom! Enquanto trabalho em mais dois, uma coletânea de crônicas e outro sobre carreira, negocio a possibilidade de reedição dos outros.

Costumo fazer palestras de segurança no trabalho, abordando o aspecto comportamental e não técnico ou de equipamentos de segurança. Mesmo assim, ninguém tem maior autoridade para falar de segurança — ou da falta dela — do que quem fala na primeira pessoa do singular.

Flávio Lucio Peralta é o cara. Pude conhecê-lo pessoalmente após uma palestra que fiz no Paraná. Em 1997 Flávio sofreu um acidente de trabalho de 13.800 volts e perdeu os braços. Hoje ele usa próteses e ministra palestras com o título “Perigo: Alta Tensão” para salvar braços e vidas, além de passar um fantástico exemplo de superação.

Mario Persona

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A Sabedoria das Multidões
JAMES SUROWIECKI

Originária de artigos sobre o funcionamento dos mercados, A SABEDORIA DAS MULTIDÕES mostra que “as melhores decisões coletivas são produtos de desacordos e contendas, e não de consenso e compromisso”. Com clareza e erudição, James Surowiecki atravessa temas diversos como cultura popular, psicologia, biologia, fundamentos econômicos, inteligência artificial, história militar e teoria política para mostrar como este princípio da sabedoria das multidões opera em nossa realidade. “Sob as circunstâncias corretas, os grupos são notavelmente mais inteligentes e, freqüentemente, mais espertos do que as pessoas mais espertas que os integram”, adverte o autor, justificando por que as massas são mais sábias do que os especialistas.