Vôo 1907 – Desastre na selva da informação
por Mario Persona



A tragédia do Vôo 1907 abalou o país, mas o desastre de informação que se seguiu à queda do avião continuará causando danos muito tempo depois que a selva sepultar o que restar dos escombros. Há lições a serem aprendidas também em momentos assim — eu diria até principalmente em momentos assim.


E a principal lição é que, na era da abundância da informação, não podemos mais acreditar em tudo o que lemos, vemos ou ouvimos. Dar forma ao dado é o que chamamos de informação. A partir daí já não é o dado, mas quem deu forma a ele, que vale. Aceitar ou não isso é o papel e a responsabilidade de qualquer pessoa mergulhada nessa era da informação, cujo poder está cada vez mais na capacidade de leitura e discernimento daquilo que cai em nossos olhos e ouvidos.

Como nunca antes dependemos mais do tato, do olfato e do paladar, do que da visão e audição, para assimilarmos o que vemos e ouvimos. Fique agora com a crônica Vôo 1907 – Desastre na selva da informação

Mario Persona


Vôo 1907 – Desastre na selva da informação

Sempre fui um apaixonado por aviação. Aeromodelista na adolescência, dono de uma coleção de plastimodelos de aviões famosos (inteiros até nascer o primeiro sobrinho) e piloto de Paulistinha aos dezessete anos, voar sempre foi uma paixão.

Hoje vôo com freqüência, mas em aviões de carreira e por exigência da profissão. Por causa desse convívio com vôos, tripulantes e passageiros, sempre que um avião cai eu também sou atingido. Mesmo porque já perdi um amigo muito querido em um acidente aéreo.

Por isso gelei quando uma emissora de TV noticiou que um avião tinha desaparecido na selva. Aquele era o fato. As especulações vieram depois no futuro do pretérito para a emissora se livrar de ações. Primeiro, todos passageiros “teriam” morrido no acidente. Depois, alguns “teriam” sobrevivido e “teriam” sido resgatados por índios, que “estariam” sendo encaminhados para um hospital, que o jato executivo que “teria” causado o acidente “poderia” estar a serviço do narcotráfico em vôo que “seria” clandestino.

Sem saber em quem acreditar, decidi partir para o Orkut e acompanhar o noticiário numa comunidade que alguém criou sobre o tema. Ali um mundaréu de gente — enquanto escrevo, já somam mais de 220 mil — trabalhava para descobrir links, discutir, sugerir e boatar. Sim, boatar, porque quando a informação perde a graça, a boataria é que grassa.

Uma das primeiras observações era de um contestador. Dizia ser um absurdo tanto barulho por causa de alguns passageiros das classes privilegiadas em um país com tanta desigualdade social e milhares morrendo de fome e blá-blá-blá. Lembrei-me dos discursos cheirando a ranço das viúvas do muro de Berlim que ainda podem ser vistas por aí.

Então vieram as teorias conspiratórias. Alguém sugeriu que o vôo 1907 tinha algo a ver com o vôo 7091 do seriado Lost, já que os números eram os mesmos. Outro afirmava que o avião tinha sido levado por um disco voador. Quando encontraram o avião, mas não os passageiros, ele mudou o discurso: era um caso de abdução. Segundo outro, a FAB estaria testando mísseis ar-ar com aviões baseados na Serra do Cachimbo. Não que ele quisesse insinuar algo…

Enquanto isso alguns associavam os nomes da lista de passageiros a nomes de usuários do Orkut e vários homônimos tiveram um trabalhão para limpar sua área de recados de mensagens do tipo “Descanse em paz”. O dia ainda não tinha terminado e a Wikipedia já trazia um verbete de Peixoto de Azevedo comentando que o município era conhecido por causa do acidente.

Enquanto isso, a companhia aérea descobria que qualquer plano de gerenciamento de crises, por mais bem elaborado que seja, fica com cara de simulador de vôo quando comparado a um desastre real. Companhia, governo, aeronáutica e agências envolvidas descobriram também que a comunicação com a mídia e com os parentes das vítimas deve ser feita por profissionais de tato, não por ocupantes de cargos ou assessores bons de papo. O desencontro das informações era tamanho que os envolvidos pareciam só concordar numa coisa: existia um avião envolvido no acidente.

Enquanto a mídia convencional e milhões de palpiteiros achavam ter algo a dizer em português, um sobrevivente do outro avião distribuía alfinetadas na mídia norte-americana usando técnicas de parcialidade que todo jornalista experiente sabe usar quando convém. Em meio ao fogo cruzado da desinformação, os familiares tristes e perplexos já não sabiam mais em quem confiar. Como alguém com o coração em pedaços iria filtrar os fatos dos boatos?

O próximo capítulo certamente incluirá TVs, rádios, jornais e revistas saindo à caça de viajantes que não viajaram, videntes que dirão ter sonhado com o acidente, místicos garantindo ter recebido mensagens dos passageiros no além e advogados de porta de velório assediando os familiares e prometendo processar até a floresta amazônica se isso render algum.

Lição a ser aprendida? A informação está cada vez mais abundante, mas a desinformação vem a reboque. Um dia alguém disse que “informação é poder”. Agora alguém precisa avisar que “saber discernir informação é sobreviver”, pois tão abundante quanto a informação será o volume de ruído que cada vez mais assolará nosso ouvido.

Em quem acreditar? Em nada e em ninguém. A mídia convencional sabe que se não sangrar não dá audiência. A mídia informal não tem qualquer compromisso com a realidade dos fatos e tem endereço incerto ou não sabido. De agora em diante a ordem é desconfiar e desenvolver a capacidade de filtrar. E quando os jornais falarem em caixa-preta fique ciente de que ela é cor-de-laranja.

resenha resenhas resumo resumos livro livros crítica críticas opinião opiniões literatura literaturas comentário comentários

Ansiedade de Informação 2
RICHARD SAUL WURMAN

As informações produzidas e veiculadas na quantidade que recebemos hoje podem estar mais atrapalhando do que sendo úteis às pessoas, já que há uma preocupação muito maior com o estilo e a estética do que em tornar as informações realmente compreensíveis.

Autor de uma centena de livros, Wurman tornou-se best-seller nos EUA com suas obras que popularizaram a expressão “arquitetura da informação”, expressão de um novo campo de trabalho lançado por ele ao organizar a Conferência Nacional do American Institute of Architects de 1976.

Partindo da premissa de que é preciso aprender a diferença entre informação como produto e informação como significado, o autor defende que, uma vez dominadas as regras para dar e receber informação, é possível aplicá-las competentemente em qualquer contexto. Dessa maneira, poderemos nos tornar produtores mais competentes da informação e, conseqüentemente, gerar mais eficiência na compreensão.

Escrito de maneira objetiva e irreverente, procura estimular a curiosidade do leitor e oferece um panorama geral da influência e importância das instruções e informações na nossa vida, além de mostrar aplicações práticas dos conceitos que defende para a vida cotidiana. O texto permite que a leitura seja feita de acordo com as duas leis máximas do autor: interesse é o melhor acesso a informação (as pessoas só aprendem aquilo que lhe interessam) e ser subversivo (quanto mais questionar, mais aprenderá).

Sobre o autor: Richard Saul Wurman formou-se arquiteto em 1959 e é mestre em arquitetura pela Universidade de Pensilvânia, além de membro do American Institute of Architets (ALA). Já em 1962, ao lançar seu primeiro livro, assumia a grande paixão de sua vida: tornar a informação compreensível. Isso implicou em uma carreira docente em várias universidades norte-americanas.

Premiado diversas vezes pelo National Endowment for the Arts e recebeu o Prêmio Kevin Lynch do MIT pela criação dos guias de viagem ACCESS e teve sua obra reunida em exposição retrospectiva na Galeria AXIS de Design em Tóquio, no Japão. Além disso, foi incluído em 1997 e 1999 pela revista Upside na “Elite-100” – a seleção anual das 100 personalidades mais influentes dos Estados Unidos entre líderes das áreas de tcnologia, finanças, comunicações e governo.

Tornou-se best seller com as obras Ansiedade de Informação(1989) e Ansiedade de Informação 2 (2001) que popularizaram a expressão arquitetura da informação. Nos últimos anos, vem publicando guias sobre saúde e finanças por sua própria editora, a TOP Books. Além disso, continua a atuar como consultor para governos e grandes corporações em matérias de design e compreensão da informação.