Lama
por Mario Persona



(Español)
Se vou falar de política? Não. Vou falar de Rampa. Não, não é a rampa de Brasília, é Rampa, o Lobsang, pseudo-lama que me enganou dizendo que enxergava o que todo mundo não conseguia ver. Não, eu não disse que ele não viu o que todo mundo vê, ao contrário. O lama Lobsang Rampa dizia ter um furo na testa com um terceiro olho, sua “terceira visão”.


Não sabe o que é um lama? Bem, lamas são pessoas que vivem no lamastério. O lugar onde os ministros ficam não se chama ministério? Então, no Tibet os lamas ficam no lamastério. Tudo bem, você não tem obrigação de saber, porque lama não era uma palavra muito comum por aqui. Mas hoje é.

A primeira vez que ouvi falar em lama foi na década de 70, nos livros de Cyril Henry Hoskins, escritor britânico que dizia que seu corpo havia sido tomado de assalto por um lama tibetano após cair de uma macieira. Foi também a história que ele contou para a mulher quando chegou em casa “valando cum zutaqui diverenti”. Cyril disse a ela que agora era Lobsang Rampa, e ela até achou bom, só pra variar.

Eu era adolescente e fascinado por seus livros. Minha ingenuidade sem filtro devorou todos, menos “Minha visita a Vênus”, que o editor original não publicou porque achou que Lobsang viajou. Engraçado como não achou o mesmo em “Minha vida com o Lama”, escrito pela gata siamesa do monge. Sim, sua gata escreveu um livro. Foi também o que ele disse à esposa.

Hoje é fácil entender o que tanto me cativava naqueles livros: Promessas de poder. “Sereis como Deus…” foi a promessa da serpente a Eva no jardim do Éden e seu eco não parou até hoje. Lobsang me prometia poder para enxergar o além com um olho-estepe cravado na testa, viajar para onde eu bem entendesse em meu avião astral e receber um novo mandato caso o corpo titular sofresse o impeachment da morte. Em suma, ele prometia um vidão.

E é de promessas que vivemos e de promessas que se sustenta a democracia que, segundo a Wikipedia, teria sido chamada por Aristóteles de “um governo injusto governado por muitos”. Ué, então por que reclamamos? Porque às vezes não nos sentimos entre os “muitos” que governam.

Essa amalgamação de barro — a humanidade — com o ferro — o poder — era o que formava os pés da misteriosa estátua do sonho de Nabucodonosor. A cabeça era de ouro, o tronco de prata, os quadris de bronze e as pernas de ferro, representando respectivamente os poderes babilônico, persa, grego e romano. Além dos pés de ferro e lama, a democracia que sucedeu Roma depois que esta virou seriado da HBO.

Ferro e barro formam uma liga frágil, como as promessas que nos assolam em vésperas de eleições. Promessas que são reais apenas nas mentes crédulas dos que querem eleger aqueles que as fazem. E aí entra a comunicação dos políticos, tentando tornar reais promessas apenas virtuais.

Os que se saem melhor nessa tarefa são justamente aqueles que mostram, não aquilo que pretendem fazer, mas aquilo que seus eleitores gostariam de ser. Porque o que cada cidadão almeja mesmo é o poder. Quando vêem seu candidato, querem se enxergar nele ocupando um lugar ali.

Então candidatos que tentam parecer que são o que o povo já é não fazem tanto sucesso quanto aqueles que já foram o que o povo é e não tentam esconder o que hoje são, que é o que o povo quer ser. Leia de novo que você vai entender.

Portanto, não espere que nessa comunicação as coisas sejam lógicas e racionais porque o comportamento humano não é assim. Aviões de luxo, malas de dinheiro, mordomias e poder para por e dispor de corruptos ao seu bel-prazer são ingredientes que fazem parte do aristotélico “governo injusto governado por muitos”.

Ok, isto é o mais longe que consigo enxergar em política, portanto não espere que eu diga em quem você deve votar. Com meus antecedentes, sou a pessoa menos qualificada para isso. Afinal, quando jovem eu fui enganado pelo Lobsang Rampa e até acreditei nas promessas que sua gata fazia. Imagine, acreditar que uma gata era capaz de escrever um livro! Desse jeito eu seria até capaz de acreditar que um animal poderia se candidatar.

Hmmmm… pensando bem, até que não seria má idéia, ao menos para facilitar o processo eleitoral. Afinal, os números dos candidatos todo mundo sabe de cor: Avestruz é 1, Águia é 2, Burro é 3, Borboleta é 4…



POSFÁCIO

A novidade é que meus vídeos estão também no Revver.com que paga alguns centavos ao autor cada vez que alguém clica na propaganda que aparece no final do vídeo. Pelos meus cálculos, em 238 anos já posso me aposentar.

Está esperando que eu fale das eleições? Sou zero à esquerda em política, como já disse na crônica acima. Eu acredito até em gata que escreve livros! Mas, para não desapontá-lo, sei dar meus palpites quanto à comunicação dos três principais candidatos destas eleições? Vamos lá:

Candidato 1: Toda a lista de coisas que Lula é ou faz é objeto de desejo do brasileiro. Alguém que saiu do sertão e, sem estudar, chegou ao cargo máximo da nação, dá água na boca de qualquer um na fila. Seus oponentes apenas fazem o eleitor salivar quando descrevem em detalhes as mordomias do cargo.

Já pensou ter avião de luxo? Morar num palácio? Conhecer o mundo com tudo pago? Como é o nome daqueles programas? Cinderela… Princesa por um Dia… Show do Milhão… não importa. Ele chegou lá sem a ajuda dos universitários.

O que? Isso é feito com o dinheiro de impostos? E daí, a maior parcela da população nunca soube o que é entregar uma declaração. No máximo se declara isenta na loteca para não perder o CPF. E já que está na loteca, que tal fazer uma fézinha com o que recebeu do bolsa família?

Candidato 2: Alckmin é muito certinho, arrumadinho, penteadinho e fala como professor. Ninguém gosta de professor assim. Todo mundo gosta de professor escachado, engraçado, que fala gíria. O candidato tem um perfil lógico e racional, portanto fala para cérebros, algo não muito em voga hoje em dia.

Seu adversário é um contador de histórias que fala para o coração, como faz a novela. Alckmin é TV Cultura e Lula é novela, com moça pobre e galã rico. Pergunta o que o povo prefere assistir. Alckmin representa o real, o cinza e racional. Lula representa o virtual, o sonho, sedutor. O primeiro é o médico que chegou a governador. Grande coisa — dirão alguns. O segundo é o retirante que chegou a presidente. Uau! Eu também quero! — dirá a maioria.

Candidata 3: Se a Heloísa Helena tivesse uma boa assessoria de comunicação sairia vestida e produzida com roupas caras, cabelo oxigenado, maquiada e sorridente. Deixaria os outros na poeira, conquistaria o eleitorado feminino e ganharia a eleição. Seria uma Marta versão light. Ela é mais magra, não é?

Mas do jeito que ela aparece por aí, sua imagem não é o que as mulheres gostariam de ser ou de ver na presidência. Cara de sofredora, cabelos embaraçados e jeans surrado é o que a mulher comum já vê todos os dias quando olha no espelho. Ela quer alguém que mostre uma outra vida. Heloísa não está mostrando. Não entendeu que comunicação não trata com realidades, trata com aspirações. As pessoas não elegem alguém para estar lá, mas alguém que gostariam de ser lá.


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