A última palavra em segurança
por Mario Persona



(español)
Você já deve conhecer as famosas últimas palavras de anônimos, como as do policial da brigada antibombas (“Vai por mim, pode cortar o fio vermelho…”), do pedreiro (“Pode subir que o andaime agüenta…”), ou do eletricista (“Pode ligar a chave geral que já consertei…”). Pois é, todos afirmaram de pés juntos que não havia perigo. E terminaram de pés juntos.


Sou obcecado por segurança. Uma obsessão conhecida de amigos e parentes que já ouviram todas as histórias horríveis que trago no bolso do colete para qualquer ocasião de risco. Às vezes sou até chato, mas que culpa tenho de ser um contador de histórias? E de conhecer casos como o do rapaz que acendeu um fósforo para ver se havia combustível no tanque, ou do casal de namorados que foi beijando do cinema ao pronto-socorro para desengatar seus aparelhos ortodônticos? Até beijar é risco!

Já ouviu falar nos “Caçadores de Mitos”? Pois é, eu sou um “Caçador de Perigos”. Vivo de olho. Li de dois passageiros que teriam visto a porta mal fechada de um avião e nada fizeram. Não acredito. Será verdade?! A porta se abriu durante o vôo e quase matou gente no ar e na terra. Se eu estivesse no vôo, teria corrido lá fechar a porta. Provavelmente seria o primeiro a ser sugado, mas pelo menos teria tentado. Por isso aprendi que ficar de olho no risco também é um risco. Uma vez gritei para a mulher do carro ao lado fechar a porta, mas ela não entendeu e ainda xingou! Não fez o que sugeri que fizesse. Nem eu fiz o que ela me mandou fazer.

Pouca gente sabe, mas segurança dá dinheiro. Tenho feito palestras sobre segurança e qualidade de vida, mas não é de normas, procedimentos ou equipamentos que costumo falar. Disso o pessoal já está careca e de capacete de saber. Há os técnicos de segurança, os engenheiros, os médicos, os treinamentos, as SIPATs, as CIPAs e dúzias de outras siglas cuidando do assunto. Para variar, costumo falar de dinheiro. Dinheiro? Sim, mas não o do cachê da palestra. Falo do quanto uma empresa e seus colaboradores ganham com segurança. Ou perdem com a falta dela.

Além dos danos à vida, à saúde e ao meio-ambiente, acidentes machucam o bolso do patrão e do trabalhador. É fácil entender: qualquer acidente pode parar uma linha de produção, detonar a qualidade e aumentar os custos. Sem falar da unha preta. Moral da história? Produto mais caro, menor qualidade, empresa menos competitiva. Sem falar da unha feia. Empresas menos competitivas não podem investir em promoção e qualificação pessoal, equipamentos modernos e num melhor ambiente de trabalho. Sabe quem vai morrer com o mico? O trabalhador.

Não fui sempre assim preocupado com segurança. Gostava de correr riscos, de viver perigosamente. Mas a vida foi ensinando e as histórias tristes se acumulando. Como a do amigo que perdi depois de seu ultraleve bater asas em pleno vôo. A ironia é que o pára-quedas especial para ultraleves, que ele acabara de trazer dos EUA, estava no porta-malas do carro para ser instalado depois daquele vôo.

Com a chegada dos filhos a gente começa a pensar mais em segurança. Começa a perceber que a segurança pessoal — ou a falta dela — tem desdobramentos que podem atingir também outras pessoas. Quando ganhei um terceiro filho, portador de deficiências, passei a levar a coisa ainda mais a sério. Quando você tem nas mãos alguém totalmente dependente e incapaz de se defender de qualquer dano ou perigo a responsabilidade fica ainda maior.

Pilotar uma cadeira de rodas também aguçou meus sentidos de perigo para coisas que antes considerava insignificantes, como degraus, buracos ou até atravessar a rua correndo. As decisões precisam ser planejadas porque tenho outra vida literalmente em minhas mãos. Mas também há vantagens. De tanto ficar de olho no chão, achei uma nota de 50 reais durante um passeio.

Mas nem sempre sou capaz de intervir nas situações de risco, e sofro com isso. Outro dia fui obrigado a assistir a um show de imprudência, enquanto aguardava na sala de espera de uma empresa. Do outro lado do vidro um rapaz fazia malabarismo para esticar uma faixa entre a fachada e um poste de luz.

Com a ponta de um pé no muro, a sola do outro entre duas pontas de lança de uma grade de ferro e os dentes segurando a cordinha, estava quase achando que era uma vantagem ele ter tantos fios elétricos ao alcance da mão, caso perdesse o equilíbrio. Terminou sua performance com um salto e saiu de cena. Foi quando consegui ler os dizeres da faixa:

“BEM-VINDOS À SIPAT – SEMANA INTERNA DE PREVENÇÃO DE ACIDENTES DO TRABALHO”.




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Manual de Saúde e Segurança do Trabalho: Vols. I, II e III
SEBASTIAO IVONE VIEIRA

A Saúde e Segurança do Trabalho não apenas tem impacto direto sobre a vida dos trabalhadores e suas famílias no Brasil e no mundo, como também é elemento central no processo de desenvolvimento econômico e social, com conseqüências que vão além daquelas resultantes das doenças e acidentes do trabalho gerados no ambiente laborativo e que se refletem direta ou indiretamente sobre o mercado de trabalho, a produtividade dos trabalhadores, o rendimento familiar e sobre a pobreza, os sistemas de previdência social, o comércio internacional e, até mesmo, sobre o meio ambiente.
O trabalhador com qualidade de vida no trabalho tem boas condições de saúde, aumenta a produtividade, exige menos gastos em programas de saúde e assistência médica, trabalha satisfeito, apresenta menos ausência ao trabalho e sofre menos acidentes do trabalho. Estas premissas fazem com que sua saúde biopsicossocial esteja em equilíbrio, existindo uma grande harmonia entre trabalhador e empregador.