O preço da fama
por Mario Persona



Em pé no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, eu aguardava o momento de embarcar no vôo que me levaria a Curitiba. Mentalmente ia construindo o que pretendia falar na palestra que faria naquela tarde, quando algo chamou minha atenção.


Do outro lado da sala de embarque três pessoas olhavam em minha direção. E conversavam entre si apontando para mim. Conhecidos? Não, as fisionomias do rapaz e das duas mulheres eram completamente estranhas.

Instintivamente olhei para baixo e conferi se estava tudo fechado. Tinha acabado de sair do banheiro. Continuavam olhando. Então uma voz ecoou em minha mente:

— É com você, Mario. Eles querem um autógrafo. — Era meu ego sussurrando.

— Será? Por que alguém iria querer um autógrafo meu? — perguntei, enquanto verificava se minha caneta estava no bolso do paletó, para o caso de meu ego estar com a razão.

— Ora, Mario, você escreve livros, dá palestras em todo o país e tem até mil amigos no Orkut! Uma hora acabaria ficando famoso. Pois essa hora chegou!

É verdade, cedo ou tarde a gente acaba ficando famoso, ainda que seja dentro do perímetro de nossa mesa ou na reunião de condomínio. Ouvi dizer que um ser humano exerce, em média, influência sobre dez mil pessoas no decorrer de sua vida. Exercia. Hoje, com toda a tecnologia essa influência é ainda maior. Seja ela boa ou ruim.

É preciso saber administrar isso. Se eu sei que posso influenciar outros, como devo ser? E se qualquer cidadão anônimo é hoje filmado, fotografado e rastreado, será que a fama não está logo ali? Está. Basta um escorregão e seu rosto vira manchete. Boa ou ruim.

De vez em quando chega um e-mail de algum aluno que foi influenciado por mim há anos. Percebo que a influência foi mais pelo que ele viu em mim do que pelo que eu disse a ele. O fato de o aluno se lembrar de mim também é fama. Boa ou má fama, mas é fama.

Durante o almoço em um evento onde fiz uma palestra de vendas, sentei-me com dois diretores da empresa e de frente para uma profissional de vendas. Quando eu disse que era formado em arquitetura, ela disse que também era. Quando citei a escola, era a mesma. A época? Nossas turmas conviveram por pelo menos três anos.

Uma coincidência assim poderia se transformar em um grande embaraço, dependendo da fama que deixei lá trás. Será que hoje eu posso contar comigo como era, ou amanhã vou precisar me esconder do que hoje sou? Fama é assim.

Mas nada disso me preocupava naquele momento no aeroporto, enquanto era apontado de longe por aquelas três pessoas que, segundo meu ego, estavam morrendo de vontade de pedir um autógrafo. Como a distância era grande, pensei até em disfarçar uns passinhos e ir me aproximando, mas achei que poderia pegar mal.

Então percebi que não precisaria caminhar até lá. A poucos passos de mim outro grupo olhava em minha direção. Marido, mulher e filha adolescente, cochichavam para eu não escutar o que já estava escutando.

— É ele sim. Tenho certeza. Pode ir lá pedir. — dizia a mãe.

— Tenho vergonha, só se você for comigo. — cochichava a filha.

— Então vamos! — decidiu a mãe, tirando da bolsa uma câmera.

Desta vez fui mais rápido que meu ego e já ajeitava o nó da gravata quando elas caminharam em minha direção disparando o pedido:

— Podemos tirar uma foto? — perguntaram em uníssono.

— É claro! Será um prazer. — respondeu uma voz vinda de trás, tirando as palavras de minha boca.

Logo mãe e filha se fotografavam, sorridentes, abraçadas ao cantor sertanejo que eu não vira atrás de mim. Tentei fazer cara de paisagem, mas minha cara de idiota devia ser notória. Por onde andaria meu ego naquela hora?

Assista a versão em vídeo desta crônica na TV Barbante

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