Saudades do Jeca
por Mario Persona



Minha maior dificuldade quando me meti a falar em público foi o sotaque. Do interior, caipira, que puxa no “R”, que fala poRta, poRteira, bRoco, gRobo. Sotaque é difícil de mudar, mas a gente pode se adaptar. É só evitar falar palavras como porta, porteira e outros trens.


Basta eu ir para o Rio ou para a capital aqui pertinho e meu sotaque dói nos ouvidos (aqui a gente diz “nas orêia”) dos outros, como sol (aqui a gente diz “sór”) do meio-dia para quem sai de cinema escuro na sessão da tarde (aqui a gente diz “tarde” mesmo, mas de um jeito que arde). Fica logo na cara que sou do interior.

Se o guarda pede os documentos e digo que estão no porta-luva, ele logo dispara:

– O senhor é do interior, não é?

Paro num hotel, digo ao manobrista que preciso pegar algo no porta-malas e pronto! É sempre a mesma história:

– O senhor é de Piracicaba?

Não, mas sou vizinho, de Limeira, o que fica do mesmo tamanho no “R”.

Uma vez liguei para uma empresa no Ceará e a menina que atendeu foi logo perguntando:

– Ô sénhorrr é do intériorrr de São Paulo, é não?

Confirmei.

– Arréconheci pelo sótaque!

Mas não é só em Limeira, Piracicaba, Santa Bárbara D’Oeste e adjacências que se fala o caipirês. No eixo que vai daqui a Ribeirão Preto, passando por Santa Rita do Passa Quatro, a maioria fala assim, puxando no “R”. É onde mais se escuta frases como:

“Óia, nóis vamo descansá; num güento mais trabaiá, vamo tirá uma forga de veiz em quando, cumpadre!”.

Menos em Campinas, onde o pessoal fala melhorzinho e se você perguntar se lá é interior vão dizer que não. Só que também não é capital.

Mas o território da caipirada é extenso, indo até Uberaba e Uberlândia (ou Beraba e Berlândia no dialeto local), pegando também toda a região de Bauru, até o norte do Paraná. Para o outro lado você tem a caipirada que se acha mais chique só porque mora no eixo Rio-São Paulo – Taubaté, São José dos Campos e adjacências. Não podem se esquecer de que foi de lá que saiu o Jeca.

Acho que foi aquela pureza e inocência do Jeca que serviram de inspiração quando decidi me aventurar na carreira de falar em público com sotaque e tudo. Achei que as pessoas sentiriam dó de mim, como sentem dó do Jeca, e me dariam um voto de confiança. Porque o Jeca é a imagem do sertanejo típico, cheio de inocência, de simplicidade, de desinteresse, de honestidade. Pelo menos o Jeca antigo era assim.

Com o tempo fui descobrindo outros profissionais de comunicação que estavam se dando bem apesar do sotaque. Às vezes sou até confundido com um deles, talvez pela estatura, pelos cabelos grisalhos e voz de berrante, além do inconfundível “R”. É comum alguém me perguntar, depois de uma palestra:

– O senhor é parente do Milton Neves?

Não sou, não tenho qualquer parentesco com o comentarista esportivo e apresentador de TV. Mas só o fato de perguntarem já me deixou mais tranqüilo. Explico.

Eu vivia preocupado ao circular em aeroportos, de terno e gravata e maleta na mão. É que a quantidade de homens, também engravatados e de maleta na mão, que ficam me encarando nesses lugares é fora do normal. Saber que podem estar me confundindo com o Milton Neves me tranqüiliza. Acho que estão interessados mesmo é em futebol.

Antigamente eu tinha vergonha de ser caipira, depois passei a ter orgulho. Não só porque a caipirolândia é terra que gera muita riqueza, mas também por causa da cultura e da música, que virou um grande negócio quando deixou de ser caipira para virar country. Veja você, eu antes era caipira e hoje sou country! Pra que me envergonhar se ganhei até nome “ingrêis”?

Além disso, o sotaque era uma vantagem na impressão que causava nas pessoas. Certa vez uma senhora me abordou após uma palestra:

– Adorei seu sotaque. Esse sotaque caipira do interior inspira tanta confiança na gente! Faz a gente acreditar em tudo o que você diz. É que as pessoas do interior são mais simples, mais ingênuas, mais sinceras, mais honestas.

Isso foi há algum tempo. Hoje ela não diria o mesmo, com tanto caipira saindo correndo de Brasília. Eu disse de Brasília? Ingenuidade a minha! Caipira de Brasília só se for o da pamonha.

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Música Caipira: da Roça ao Rodeio
ROSA NEPOMUCENO

Os passos percorridos pela música caipira até ela adiquirir a feição pop dos dias atuais são rastreados neste livro que traz, no fundo, uma parte rica e substancial da história da cultura popular brasileira. O livro, que fala sobre a história da música caipira, é dividido em duas partes e tem cerca de 100 fotos. A primeira parte, a história, com todos os afluentes que banharam a música do caipira do centro sul do país. A segunda, com 16 perfis dos personagens mais importantes do gênero, de Tonico e Tinoco a Chitãozinho e Xororó.