Bono de Vox
por Mario Persona



O relógio marca 2:45 da madrugada e tive uma inspiração. Devo colocá-la no papel? Geralmente é o que faço. Tenho bloco e caneta no criado-mudo, mas hoje corri para o computador. Se eu não escrever? Pode esquecer…


Chame de intuição, estalo ou inspiração, o certo é que não basta ter, é preciso que esteja associada à oportunidade. Ou, se preferir em latim contemporâneo, timing, que o Houaiss define como “sensibilidade para o momento propício de realizar ou de perceber a ocorrência de algo” e Geraldo Vandré como “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Comecei a pensar no assunto há duas madrugadas, enquanto assistia a um documentário sobre o incrível Robert Allen Zimmerman, nome bom para um joalheiro, não para um Bob Dylan. Levado a tiracolo para o movimento dos direitos civis por Joan Baez, é o típico caso do talento que se transformou em evento graças ao timing do vento. Nossa! Não acredito que fiz esta rima ridícula!

Acho que é porque “Blowing in the Wind” — adotado como hino dos direitos civis — está despenteando meus neurônios. Mas foi assim. Protestar contra a discriminação nos EUA era a bola da vez.

Mas não foi só Dylan quem ganhou com o timing. Não havia na Inglaterra um ativismo social igual, mas havia uma boa hora para uma banda do bem e outra do mal: Beatles e Rolling Stones.

Bem, no princípio os dois eram do mal, vestidos de couro e cabelos desgrenhados, mas Brian Epstein decidiu lançar os Beatles comportados, de terninho e cabelinho Channel, uma alternativa higiênica para os Rolling Stones. Assim papai e mamãe podiam deixar os filhinhos irem aos shows.

John Lennon foi o Bob Dylan dos Beatles no timing de seu protesto. Vai ter fã querendo me matar como fizeram com ele, mas está na cara que ele soube e fez a hora, despindo-se literalmente dos valores ocidentais e adotando, também literalmente, valores orientais. Que o timing estava correto, isso estava. Senso de oportunidade é geralmente traduzido como sorte por quem vive reclamando que não tem e morre de inveja de quem tem.

Agora que já estou jurado de morte pelos fãs de Bob Dylan e John Lennon não custa nada falar do senso de oportunidade de Bono Vox, pseudônimo de Paul David Hewson. Assim como Bob Dylan e John Lennon, cada um em sua época e ao seu modo, Bono Vox é referência na era da inclusão social — U2 lê-se “You Too” ou “Você Também”.

Entenda que ter senso de oportunidade não é o mesmo que ser oportunista, no mau sentido. É sinal de inteligência, de saber aliar sua arte a uma causa ou sua causa a uma arte, de unir o útil ao agradável. É por falta de timing que muitas estrelas de menor grandeza não passam de aquecimento para shows maiores. O que não deixa de ser uma oportunidade.

Ah! Há outra coisa que preciso incluir neste tema tão oportuno: senso de oportunidade depende de presença de espírito e boa comunicação. Duas coisas que Bono Vox demonstrou ter numa entrevista mais ou menos assim:

— O que acha de seu show ser depois dos Rolling Stones, que atraíram mais de um milhão de pessoas?

— Acho ótimo que tenham feito o aquecimento do público brasileiro para nosso show — respondeu o artista espirituoso e bom de papo. Ou, na gíria em latim que deviam usar na Roma antiga, “bono de vox”.

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