Campanha do desamamento
por Mario Persona



Campanha do desamamento

😀 Agora desamou geral. Não que o pessoal se amasse tanto assim, mas não esperava tamanho desamamento como o que essa campanha gerou. Parece que conseguiram dividir o país no meio. Agora temos prós e contras, e nem somos Nicarágua. Aos com terra e sem terra, com casa e sem casa, juntaram-se os com arma e os sem arma. Pelo menos na discussão, quem está armada é a confusão.


No botequim, no fórum na Internet, na propaganda da TV, já está parecendo que os do SIM querem matar os do NÃO, e estes querem fuzilar os do SIM e as razões vão desde o “porque sim” ao “porque não”. Parece a conversa de telefone que ouvi certa vez, de um sujeito brigando com alguém:

— Hein?! Você vai me matar? Pois fique sabendo que se você me matar eu também mato você!

Pode? Só se for de susto, na base da alma penada. Enquanto isso os caipiras aqui do interior já decidiram: vão continuar rezando para as “armas”.

E se disso tudo eclode uma revolução? Já pensou? Aí a TV iria chamar de “Campanha Morte pela Vida”. Ou “Vida pela hora da morte”, se fosse passar na hora do noticiário econômico. Será que os que votam contra as armas pegariam nelas para lutar? E os que são a favor, não seriam tentados a vender armas para os do contra?

Felizmente até aqui o desamamento só ficou na xingação e no papo, que nem briga de menino. A ideologia, na prática, nem sempre segue o mesmo rumo. Foi a lição que aprendi quando tinha 7 anos de idade. Me botaram no judô, só porque toda criança estava indo para o judô e era preciso aprender auto-defesa. Fui contrariado. Até hoje sou do tipo que acha que meu maior perigo anda dentro de mim. Então auto-defesa, para mim, é saber defesa própria. Como em auto-conhecimento, auto-ajuda, auto-escola.

Então um dia dois coleguinhas se pegaram de mal jeito no tatame e um começou a chamar o outro de sutiã. Sabe como é, aquela de “Pula no peito se for homem”. Homem?! Uns catatauzinhos de meio palmo de altura enfezadinhos que nem saúvas. O acerto de contas ficou para a saída.

Na calçada vi os dois mais faixa alguma coisa da turma — deviam ser faixa cor-de-burro-quando-foge ou algo graduado assim — se atracarem aos tapas, murros e arranca-cabelos. As técnicas usadas estavam anos-luz das reverências que aprendíamos no tatame. Depois saíram os dois chorando, pois eram crianças. Foi meu último dia de judô. Desacreditei.

Agora fica esse arranca-cabelos na TV, no rádio, no jornal. O desarmamento cheira a armação. Quando o mágico faz mágica, só descobre o truque quem olha para a outra mão. Não para a que ele está mostrando, mas para aquela que está escondendo. A habilidade do mágico está em chamar a atenção para o lugar errado, para onde não está acontecendo absolutamente coisa alguma.

O referendo não tem nada a ver com armas SIM ou armas NÃO. Isso é tudo uma grande bobagem. O que a outra mão está fazendo é o que importa. Podia ser um referendo para ver quantos brasileiros são a favor ou contra a demolição do Maracanã ou se o João deve se casar com a Maria no final da novela. Seria a mesma coisa.

O tema “armas” é bomba de fumaça e um referendo semi-ganho cai como uma luva e é menos arriscado do que o do Chavez (não o Chapolin, o outro), que tinha riscos. É por isso que nessa história o SIM tem poder de NÃO na comunicação do modo como foi feita, porque quem é do SIM é do bem, e quem é do NÃO é do mal. Viu o que escrevi sobre a comunicação do referendo?

O que importa é o que a outra mão está fazendo, enquanto todo mundo só enxerga armas e municia a discussão. Tem que olhar pra onde ninguém tá olhando, pra onde ninguém tá olhando… [>> Envie a um amigo >>]

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Arte da Guerra para Quem Mexeu no Queijo do Pai Rico, A
LULI RADFAHRER

Trata-se de um alerta, como adverte o subtítulo ´Uma análise pungente da (ir)realidade corporativa´. Especialista em comunicação, o autor analisa, de maneira bem-humorada, mas nem por isso menos séria, as distorções entre discurso e prática apresentadas nos livros de auto-ajuda. A obra mostra a influência desses manuais para a formação de uma sociedade conformista, com pessoas descontentes com a vidinha que levam (mesmo que ainda não tenham consciência disso). Antes de derrubar o pragmatismo dos livros de auto-ajuda – ou aprimoramento profissional, estratégia corporativa, psicologia empresarial, recursos humanos ou biografia de negócios -, Radfahrer se propõe a fazer uma crítica social.

Fala o autor: “Na verdade, faço uma análise dos processos de comunicação empresarial. De coisas que muitos sabem, mas que não admitem ser verdade. Questiono por que todo mundo tem de ser líder. Para quê servem tantas reuniões? Existem muitas distorções nesse sistema massacrante e quando as pessoas se dão conta delas e não se encaixam, costumam pensar que são fracas de espírito. Mas é bom deixar claro que não é um livro contra as empresas ou contra os executivos, é contra o modo de vida dentro delas. Os livros de auto-ajuda são conformados. Se restabelecerem a escravidão – e estamos perto disso, o estagiário é quase um escravo – vai aparecer um livro de auto-ajuda para explicar como você pode conviver com a escravidão e produzir mais. Estes livros consideram o que acontece hoje inevitável.” (extraído da entrevista no www.webinsider.com.br)