Sedativo de escorpião
por Mario Persona



Sedativo de escorpião

De um leitor, chegou a mensagem: “Caro Mário ! Merecidas Férias… espero que as tenha aproveitado bastante. Estamos com saudades de suas crônicas.” Puxa! Não é que passei Julho inteirinho sem publicar nada?! Férias? Nem pensei, porque não deu tempo. Que bom.


Se você está com tanta vontade assim de ler uma nova crônica, então vamos lá, sem delongas. Quase sem delongas. Meu editor contou que o livro Marketing Tutti-Frutti está vendendo super bem. Que ótimo! Já estou nos finalmentes do quinto livro, igualmente recheado das crônicas que alguns já descobriram que não servem só para negócios.

Dizem que são ótimas também para saúde. Duvida? Bem, para a minha saúde, pelo menos, são ótimas. É que escrevo com bom humor e, segundo um site que fala da fisiologia do bom humor – e do riso que o acompanha – a leitura de minhas crônicas fará seu coração bater mais forte, circulando mais sangue pelo organismo, oxigenando os tecidos e reduzindo a pressão arterial.

Elas também servem para aumentar a ventilação pulmonar eliminando o dióxido de carbono, além de exercitarem os músculos abdominais, massageando o sistema gastrintestinal. O papel de meus livros é rico em fibras, mas nem precisa comê-los para o intestino funcionar. Basta ler no banheiro. Cada capítulo tem o tamanho exato. Casos mais graves exigem a leitura de dois capítulos.

Minhas crônicas ajudam ainda seu organismo a reduzir o nível de hormônios responsáveis pelo estresse, dando um descanso para a produção de cortisol e adrenalina, além de ajudar na restauração das células. Quer mais? Já ouviu falar de crônicas como Sedativo de Escorpião? Este é o título desta que você vai ler. Boa leitura, bons negócios e boa saúde!

Mario Persona


Sedativo de escorpião

– E qual é o carro dos Persona? – perguntou um dos colegas de meu filho na van que o levava à faculdade. O assunto era a marca e o modelo de cada família.
– Quantum 87 – respondeu meu filho, sem pestanejar.
– 87? – exclamaram todos gargalhando exagerados. Ninguém acreditou.

A verdade é que na época eu tinha mesmo uma Quantum decenal e nem pensava em trocar. Não que nutrisse por ela um sentimento como o do Heródoto Barbeiro pela Kombi que dirige. A mesma que ele conta que não deixaram estacionar na frente do Hotel Transamérica quando foi dar uma palestra, ou que o levou a ser confundido com o rapaz das entregas, ao chegar a uma feira do livro.

No meu caso não havia qualquer ligação sentimental, mas puro desinteresse por automóveis de qualquer espécie. O carro anda? As portas abrem e fecham? O farol acende? Então serve para mim. Se a Quantum estava velha, feia e suja, azar dos motoristas dos outros carros. De dentro do meu, eu só enxergava carros novos, bonitos e limpos.

A insistência dos filhos levou-me a trocar por um e por outro até estacionar num Santana 97. Esse eu conduzi até recentemente, quando as reclamações recomeçaram. Dos filhos e do carro. Precisava de um mais novo para as viagens constantes para ministrar palestras e treinamentos em cidades próximas ou sem vôos regulares.

Negociador veterano, coloquei a máscara de quem só está olhando e entrei numa concessionária local, dirigida por dois rapazes que foram meus alunos de marketing. O escorpião em meu bolso beliscou, para lembrar que estava ali. Não seria fácil alguém conseguir vender para mim, um inveterado e compulsivo não-comprador. Sofro da “Síndrome de Pânico de Shopping”. Antes seria preciso sedar o escorpião.

Se pensa que um profissional de marketing é imune à sedução de uma venda bem feita, errou. Treino pessoas para vender, mas viro geléia quando encontro alguém que vende bem. Compro, com o sentimento de um professor que quer premiar um aluno com uma boa nota. E que nota!

– Por que eu deixaria de comprar um Astra, um Corolla ou um Honda para comprar um Focus? – testei a vendedora, citando os que já tinha pesquisado na Internet. Esperei pelo esconjuro de praxe contra a concorrência. Não veio. Aquela era uma venda ética, positiva e profissional.

– Todos são excelentes. Qualquer um deles vai deixá-lo satisfeito, mas… você vai ficar ainda mais satisfeito dirigindo um Focus. – Nem bem o “s” terminara e eu já estava embarcado num test drive. Os heróis de minha resistência estavam sendo vencidos, um a um. Fugi para casa, para tratar das picadas do escorpião no bolso.

Mas ela ligou para saber o que achei. Gostei do modelo hatch, mais barato para o escorpião. Porém apostei que no porta-malas não caberia a cadeira de rodas de meu filho. Ufa! Achara uma desculpa para não comprar. Ela estacionou um modelo hatch na porta de casa, só para experimentar a cadeira de rodas. Ganhei a aposta, mas ela não desistiu. Novo telefonema. Se eu só visse as condições de pagamento do sedan…!

Voltei à loja. Negociei, negociei e negociei, até conseguir o que queria. Ou pelo menos ela fez eu pensar assim. A atenção de meus alunos serviu de sedativo para o escorpião. “Vai uma água, professor? Um café?” Pesou ainda na decisão um aperto de mão. Do funcionário veterano, que conheceu meu pai, perguntou da família e trocou dois minutos de prosa saudosa.

– Aceita o Santana de entrada? – indaguei, já nos últimos espasmos.
– Claro. – respondeu ela, pegando um formulário.
– Financia o resto? – eu suava.
– Até perder de vista. – estendeu-me a caneta.

Ontem meu celular tocou. Estacionei o Focus – que agora é meu e do banco – e atendi. Da concessionária perguntavam se tudo estava bem, comigo e com o carro. Lembrei-me do que ouvi lá, de meu aluno, quando elogiei o atendimento em sua loja: “Aprendemos com você, professor”.

Foi aí que passei a olhar de um jeito diferente para o carro. De um jeito que inclui gente – as pessoas que me levaram até ele. Quase como o Heródoto olha para sua Kombi, mas acho que nem tanto. Numa Kombi cabe muito mais gente.

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Criatividade em Vendas
RAUL CANDELORO

O leitor vai aprender como vender mais, divertindo-se com as diversas histórias e dicas. Para conquistar um cliente potencial, agendar uma visita com um CEO ‘inacessível’ ou ter uma idéia de marketing realmente inovadora, basta usar a criatividade e a ousadia propostas neste livro. O autor garante que todas as idéias são práticas e aplicáveis a qualquer negócio, com as devidas adaptações caso a caso. Muitas vezes, um obstáculo aparentemente intransponível pode ser ultrapassado com facilidade quando se usa a imaginação. Na falta de imaginação, não há nada errado em copiar o que já está criado.