Quem não bloga se trumboga?
por Mario Persona



Quem não bloga se trumboga?

Chacrinha dizia que “quem não se comunica se trumbica”. Será que podemos dizer que hoje “quem não bloga se trumboga”? Se formos olhar para as estatísticas, vamos achar que são os blogs estão se trumbicando.


Segundo estudo do instituto Perseus Development, 66% dos blogs estão às moscas nos 8 serviços de hospedagem pesquisados – Blog-City, BlogSpot, Diaryland, LiveJournal, Pitas, TypePad, Weblogger e Xanga. Mesmo assim, o número de blogs no mundo deve chegar a mais de dez milhões em 2004.

Acho que podemos tirar algumas lições da pesquisa, mas outras lições importantes não estão nas estatísticas e nem nas estrelas. Estão nas pessoas. Primeiro, o termo blog. Embora sua função original tenha sido de um weblog ou diário web, o conceito mudou com o uso. Diários convencionais geralmente são lidos apenas por seus autores. Blogs são instrumentos de relacionamento em torno de experiências pessoais.

Blogs estão mais para as colunas de jornais, porém com um nível maior de descontração, irreverência e exposição ao voyerismo. Porque este último é um aspecto importante da razão de alguém visitar um blog: mais do que se informar (o que ela faz nos sites de notícias), o leitor quer conhecer a intimidade do outro.

Mas tem também o que as colunas jornalísticas não têm, que são os links e a possibilidade de feedback instantâneo. Os melhores blogs não são os noticiosos, como querem fazer crer os grandes jornais que agora embarcaram na onda, mas os que reúnem uma pequena tribo de iguais numa minúscula confraria.

Se somar confraria com confraria e você tem toda uma rede monástica eclética, porém com uma característica comum, que é o poder da comunicação personalizada e democratizada. E o poder da inovação também.

Uma empresa com a qual estou negociando alguns treinamentos de vendas in company para o próximo ano teve sua atenção atraída pelo meu blog. Um aluno (meus alunos são “convidados” a criar blogs para escrever o que aprendem em classe) foi chamado para uma entrevista e o contratante fez questão de grifar que foi o endereço do blog que revestiu seu currículo de uma aura de inovação.

Então se está ocorrendo a morte prematura ou abandono de blogs por alguns, isso não altera o sulco que o conceito deixou na estrada da inovação. O importante é entender que os blogs hoje não são o que eram quando foram criados – ferramentas de atualização instantânea e interatividade para grupos de trabalho.

Assim como também o “gentleman” da idade média não é o “gentleman” de hoje. A palavra que agora significa “cavalheiro” significava “crápula”, o senhor feudal que arrebatava para si as virgens recém casadas e mantinha seu feudo sob mão de ferro. Nada do cavalheiro que o termo hoje traduz. É preciso cuidado para não se apegar a um termo ou expressão, pois seu significado muda com o uso.

Por isso é importante não “morar” no blog, mas acompanhar a tendência que o conceito criou. Nicholas Negroponte, co-fundador do MIT Media Laboratory e autor de “Vida Digital”, escreveu: “Quando você aponta o dedo, o cão olha para a ponta de seu dedo. O ser humano olha na direção para onde você está apontando”.

A sociedade – e a Internet como microsistema – funciona como um caldo bacteriano onde as coisas crescem e se reproduzem. A bactéria que estagnar morre e o que ficar com seu microscópio apontado para a bactéria que começou o processo vai perder o bonde, se não olhar o que está acontecendo na periferia do sistema.

Daí a necessidade de acompanhar par e passo essas tendências, entrar nelas, evoluir, descobrir suas variantes e se manter em constante movimento criativo e empreendedor. De preferência nas orlas, que é onde está o desequilíbrio criador.

No mercado as coisas também funcionam assim. Não é exatamente o que está sob o nariz das estatísticas que aponta para as tendências, mas as mudanças no comportamento humano decorrentes dessas tendências, que serão responsáveis para as próximas tendências. Deixamos assim de olhar para blogs e passamos a analisar comportamentos para entender o mercado.

Se fizéssemos uma comparação com o mercado de ações, diríamos que as estatísticas sobre o uso e abandono dos blogs está para a análise fundamentalista – que analisa o status da empresa/ação – enquanto a nova cultura que os blogs introduziram está para a análise técnica, que procura identificar as variações do mercado mais em função de comportamentos das massas e da repetição de padrões, como se olhasse para fractais.

O que seria da Nike hoje se o seu fundador, após ter lido uma pesquisa sobre o abandono do uso de calçados sintéticos, concluísse que seu projeto não teria futuro? Sim, as estatísticas da época apontavam claramente que no futuro ninguém mais usaria galochas.




Blogs! Seja um Editor na Era Digital – Marcos José Pinto e O Blog de Bagda – Salam Pax
Hoje meu criado-mudo está em dose dupla, com dois livros sobre blog, o primeiro deles mais do tipo tutorial e o segundo sobre uma história real. Criado por um jovem arquiteto iraquiano de 29 anos, sob o pseudônimo Salam Pax, seu blog “Where is Raed”, escrito em inglês diretamente de Bagdá falava de assuntos variados: ia das dificuldades da vida no regime de Saddam Hussein até comentários sobre música pop. À medida que a guerra se aproximava, Salam Pax se tornou uma espécie de símbolo do iraquiano comum, descontente tanto com a ditadura de Saddam, quanto com a iminente invasão americana. Salam Pax foi encontrado por uma reportagem do The Guardian. Eu mesmo, inspirado por Malba Tahan, criei um blog das arábias em 2001 incorporando um personagem fictício – Ali Kilabah – que acompanhava as tropas americanas no Afeganistão. O blog é o “The Tora-Bora Manuscripts” cuja história conto em “Blogterapia”. Não li nenhum dos livros acima. Se você leu algum deles, que tal colocar sua opinião aqui?