Construindo pontes para o aprendizado
por Mario Persona



Construindo pontes para o aprendizado

Quando meu filho era pequeno, entrou para uma escola onde a professora era apenas dois anos mais velha.


Aos quatro anos de idade ele já estava alfabetizado e qualquer passeio de carro pelas avenidas de São Paulo era acompanhado de uma locução vinda do banco de trás que dava voz aos outdoors. Era ele lendo, do jeito que a irmã ensinou e a curiosidade incentivou.

De lá para cá não parou de aprender, com a irmã, com os pais, com os livros, com os professores. Mas aquele método de aprendizado pela curiosidade e pela própria iniciativa felizmente permaneceu e hoje ele lê coisas que eu nunca li e fala de assuntos que eu mesmo não entendo. Afinal, quem foi o seu melhor professor?

Foram vários os educadores que ajudaram meus filhos, mas por algum motivo em casa eles receberam uma boa dose de vontade de aprender, que nunca foi reprimida. Por muitos anos relutamos em ter TV em casa, o que acho que só aconteceu quando já estavam na pós-adolescência. Mesmo assim viviam bem informados lendo jornais e revistas ou assistindo vídeos escolhidos. Sem falar no apetite pela leitura que a falta de uma babá eletrônica despertou. Cheguei a escrever uma crônica sobre o assunto.

Ao contrário da TV, o computador entrou cedo na família. Primeiro foi um TK alguma coisa, depois um Apple, MSX, PC XT, 486, Pentium e nunca mais parou. Fomos os clientes de número 100 ou algo assim no primeiro provedor de Internet da cidade, mas antes eles já acessavam uma BBS. Com sete anos de idade meu filho já fazia programas de computador em linguagem Basic e minha filha escrevia suas primeiras estórias no computador, ensaiando para seu primeiro livro lançado aos 23 anos. E brincávamos muito.

Brincávamos tanto, que eu tinha até meu lugar cativo de co-piloto em um game no MSX que simulava viagens espaciais com uma nave mercante, comprando e vendendo em diferentes planetas como se fosse um Banco Imobiliário do futuro, sempre sob a ameaça do ataque dos piratas do espaço. “Pai, vamos jogar Elite?”, perguntava meu filho assim que eu chegava do trabalho. “É prá já!”, eu respondia, enquanto saía em busca de meu boné de co-piloto, enquanto caminhava pelo piso do mezzanino evitando pisar nas centenas de peças de Lego espalhadas pelo chão.

O jogo se chamava Elite, mas meus filhos não receberam seu ensino básico em escolas de elite. Salvo por um breve período em uma pré-escola particular, praticamente todo o ensino veio de uma escola estadual onde dividiam o espaço com coleguinhas que eram filhos ou filhas das educadoras. Assim, não tiveram professoras, mas verdadeiras mães que ensinavam suas classes do modo como ensinavam seus filhos. E que também nunca inibiram esse desejo natural que toda criança tem de aprender e descobrir coisas novas.

Rubem Alves fala sobre este assunto em um texto sobre a Escola da Ponte, em Portugal:

“Conto essas coisas da minha vida de menino para dizer que as crianças são curiosas naturalmente e têm o desejo de aprender. O seu interesse natural desaparece quando, nas escolas, a sua curiosidade é sufocada pelos programas impostos pela burocracia governamental. Pela minha vida tenho estado à procura da escola que daria asas à curiosidade do menino que fui. Pois, de repente, sem que eu esperasse, eu me encontrei com a escola dos meus sonhos. E me apaixonei.” Leia mais aqui.




A Escola com que Sempre Sonhei, sem Imaginar que Pudesse Existir – Rubem Alves
Escola da Ponte: um único espaço partilhado por todos, sem separação por turmas, sem campainhas anunciado o fim de uma disciplina e o início de outra. A lição social: todos partilhamos de um mesmo mundo. Pequenos e grandes são companheiros numa mesma aventura. Todos se ajudam. Não há competição. Há cooperação. Ao ritmo da vida: os saberes da vida não seguem programas. São as crianças que estabelecem os mecanismos para lidar com aqueles que se recusam a obedecer às regras. Pois o espaço da escola tem de ser como o espaço do jogo: para ser divertido e fazer sentido, tem de ter regras. A vida social depende de que cada um abra mão da sua vontade, naquilo em que ela se choca com a vontade coletiva. E assim vão as crianças aprendendo as regras da convivência democrática, sem que elas constem de um programa…