Quando fiz cursinho, ficava impressionado com a capacidade de alguns professores darem um verdadeiro show. Não éramos alunos; éramos platéia. Outros reconhecidamente sabiam mais, porém eram ótimos para insônia. Qual o melhor?

Acho que deve existir um casamento comunicador-professor, pois há pluralidade de receptores. O que seria do amarelo se todos gostassem do vermelho? (ou seria do azul?…) Se existe público para o professor show-man, dá-lhe show-man. Se existe público para o professor instropecto, idem. O que não pode é pensar como o martelo aquele ditado, que enxerga tudo com cabeça de prego.

Isso nos leva a uma área interessante da comunicação, que é a do estímulo, por parte do emissor, do conhecimento/capacidade do receptor. Não basta ter um emissor, uma mensagem e um receptor. É preciso antes identificar a freqüência, como faz o modem ao enviar os sinais de início da transmissão. Ele busca sincronismo antes de passar a informação.

Isso é antigo e permita-me citar os evangelhos, em Marcos 4:33: “E com muitas parábolas tais [Jesus] lhes dirigia a palavra, SEGUNDO O QUE PODIAM COMPREENDER.” É a capacidade do receptor que determina a forma de comunicação que o emissor deve adotar. Como há diferentes receptores, devem existir diferentes emissores ou estilos de transmissão. E o emissor deve estar preparado para mudar de freqüência de transmissão com flexibilidade, já que essa relação emissor-receptor sofre constantemente de influências do meio.

A comunicação por parábolas, conceitos ou analogias é uma das melhores maneiras de se encontrar sincronismo. É como num jogo de bilhar. Eu não preciso atingir todas as bolas para colocá-las nas caçapas. Basta eu atingir a bola certa. A capacidade de descobrir e acertar a bola certa é que determina a capacidade do comunicador. Por esta razão um bom comunicador não precisa necessariamente ter tanto conhecimento quanto se esperaria de um bom professor. Explico.

Na cabeça de meu interlocutor há muitas bolas de várias cores. Eu posso ter apenas uma, mas posso usá-la de uma maneira que acerte a bola certa no receptor criando uma reação de sinapses em cadeia que crie o conhecimento que desejo que ele adquira. Não sou eu quem vai dar todo esse conhecimento a ele, mas sou o estímulo que irá criar a reação e destinar as bolas para as caçapas certas. O conhecimento do receptor pode ser, assim, maior até do que aquele do emissor. Só não está coordenado como deveria. O título coordenador lembra algo para quem faz pesquisa?

Só isso permite que, em palestras, eu fale a diretores e presidentes de empresas que muitas vezes têm mais conhecimento do que eu. Preciso saber tudo sobre o assunto? Não. Meu público sabe o necessário. A mim cabe apenas ter a informação que irá complementar o que já sabem e causar a amalgamação desse conhecimento que eles têm na cabeça, mas que até então se encontrava em diferentes compartimentos estanques. Então a missão do emissor fica muito parecida com a do coalho, que causa uma reação no leite e o transforma em queijo sólido e coeso. Alguns acham o método meio azedo, porém…

Então, quando “parabolizo” um conceito sou capaz de alcançar desde o primeiroanista até o doutor, ajudando-os a gerar seu próprio conhecimento segundo a bagagem e capacidade de cada um. Fiz isso com o conceito de CRM em uma crônica como “CRM de Mercearia”, que aparece em meu livro “Receitas de grandes negócios” com o título de “Rodízio Japonês”. Nela eu falo da Caderneta de Registro Mensal do Toshiro, onde o comerciante anotava as preferências dos “fregueses”. Vejo o professor ou palestrante assim, não um mestre e guia, no sentido de manancial do saber, mas um facilitador e estimulador do conhecimento.

Isso também é um bálsamo contra o ego, pois ele sempre irá descobrir que seus pupilos um dia estão sabendo mais do que ele próprio, e não ficará atônito com isso. Numa mudança salutar de paradigma, então o ex-mestre poderá deixar de dizer: “EU (professor) ensinei”, para reconhecer: “ELE (aluno) aprendeu”.

P.S. *Já ouvi de duas pessoas que foram solicitados para ler minha crônica “CRM de Mercearia” em um curso de pós-graduação da FGV como texto para entender CRM. No Google descubro coisas curiosas a respeito dessa crônica, como a própria na íntegra em trabalho premiado como o melhor na área de Marketing da Faculdade de Economia e Admnistração da USP (FEA) dentre os indicados ao Prêmio Ruy Leme.O trabalho é “Marketing de relacionamento e CRM: uma análise da gestão de clientes no setor financeiro” de autoria de Thais Regina Godói Valente orientada pelo Prof. José Afonso Mazzon. Só que ali a crônica aparece como “Autor Desconhecido”, o que deve ser resultado de sua circulação via e-mail, passando por tantas mãos que acabou gastando o nome. Muito prazer, sou eu. 🙂