Quando pedi ao cliente que reservasse vôo pela Gol, estranhou. Não é a primeira pessoa que comenta de palestrantes exigindo outra companhia.

A verdade é que eu não tinha escolhido a empresa aérea, mas o horário do vôo, que era Gol. Cabia melhor em minha agenda. Mas aproveito para dizer que a companhia me agrada. Tem uma proposta diferente e criativa, daí ter me cativado no primeiro vôo.

Em minhas andanças já ouvi de palestrante que só viaja com essa ou aquela, só fica em hotel assim e come em restaurante assado. Ouvi de um que especificava a marca da água mineral na hora da palestra, como o Pavarotti especifica o provolone que aromatiza sua voz. Tudo bem, cada um tem suas preferências.

Alguém explicou que agir assim valoriza o palestrante, dá status, mostra que é estrela e tal. Pode ser. Mas também pode não ser. Me faz lembrar de um pregador americano contratado por uma denominação religiosa brasileira para vir aqui falar.

Ex-viciado, ex-delinqüente e ex-outras coisas em Nova Iorque, não quis ficar no hotel 4 estrelas que escolheram para ele aqui. Precisaram providenciar às pressas um 5 estrelas na cidade vizinha para abrigar o emergente que agora se achava mais gente. Era o hálito de peru fazendo ele se esquecer da mortadela.

Mas eu estava falando da Gol, e gosto dela porque não é nem peru, nem mortadela. É racional, o que eu preciso e só. Já fui piloto privado e sei reconhecer a diferença entre uma aeronave nova e uma refeição quente.

Há outros detalhes inteligentes também O manequim das comissárias de bordo é funcional no design serviçal. Mostra que estão ali para resolver. Tem também a valorização do saco de lixo, que desfila orgulhoso pelo corredor, com uma lição de cidadania tocando no alto falante: “Queremos deixar a aeronave limpa para vocês e para quem embarca aqui”. Quanto mais primeiro mundo quisermos ser, mais respeito pelo outro vamos ter que aprender.

Tem mais. O merchandising nas poltronas ajuda a pagar minha passagem, por que não? O bilhete é pela Internet, sem capa colorida, só uma tirinha de papel sem burocracia. Tudo traz no bojo um forte apelo de marketing alternativo e radical, e gosto disso. Até da barrinha de cereais, uma das poucas oportunidades que tenho de fazer um regiminho.

Mas, como ninguém é de ferro, nesta escala no Aeroporto de Salvador encontrei uma tomada para ligar meu notebook de bateria arriada e escrevi esta diante de um sortido de quibe e esfiha. No intervalo do tempo regulamentar e antes do próximo Gol, vou fazer uma boquinha.