Há um ano meu filho ganhou um ursinho, um Teddy Bear com fitinha no pescoço. De tanto brincar, arrancou uma perna do urso que ficou Pererê. Mesmo assim, ele não trocou pelo elefante.

Ele atira longe o elefante fofinho que compramos para substituir o urso. Será que é porque o elefante veio com um sininho na barriga? Não sei. Meu filho prefere o ursinho portador de deficiência e faz a inclusão social ao seu modo. Pedro entende do assunto.

A questão da inclusão do portador de deficiência tem ocupado meu pensamento há algum tempo. Para falar a verdade, há 17 anos. Mas nunca pensei que eu pudesse dar voz àqueles que não a tem.

Como assim? Enxergando o mundo pelos olhos de alguém que saiu de fábrica privado de alguns acessórios, ou os perdeu pelo caminho. Pernas, olhos, ouvidos ou células cerebrais, por exemplo. Quando você enxerga o mundo assim, descobre deficientes não catalogados. Um exemplo? O deficiente em cidadania que estaciona sobre a calçada. Não percebe que seu carro ali é mais uma dificuldade para aqueles que já vivem cheios delas. Tente passar com uma cadeira de rodas por ali.

Nosso mundo já é intransponível por natureza. Cabe ao homem criar as rampas, os acessos, os dispositivos que permitam incluir outros na sociedade e no trabalho. Um site muito interessante que luta por isso é o www.saci.org.br. Vale a pena visitar e até se engajar como um Repórter Saci, convite feito ali por Renato Laurenti, tetraplégico, que mora na cidade de São Paulo e procura relatar as condições de acessibilidade física de locais públicos.

Assinei o boletim do site, mas não me tornei Repórter Saci. Decidi fazer de outro modo, colocando em prática um projeto antigo. Depois que minha filha teve seu livro “Uma luta pela vida” premiado em um concurso literário, fiquei motivado a usar um de meus dois neurônios para falar pelos que não falam.

O livro de Lia Persona é um romance baseado na vida real e mostra o valor do cuidado de uma enfermeira para com o portador de deficiência. Ela explica sua inspiração em entrevista à jornalista Fernanda Do Coutto S. Riberti. O lançamento do livro é noticiado também no www.saci.org.br.

Essa mesma inspiração me motivou a criar o blog “Quero contar…”, com a história de Pedro, o dono do Teddy Bear-Pererê. Pedro, que não fala, não anda e não enxerga, conta ali sua própria história. Bem… com uma ajudazinha do papai aqui.

Como minha memória anda meio queimada, recorro à ajuda de Lia e de seu livro para me lembrar de alguns eventos. É que ela entrevistou, pesquisou e desenterrou fotos, cartas e até receitas médicas para montar o cenário e escrever uma comovente mescla de ficção e realidade em seu livro “Uma Luta Pela Vida”.

O blog de Pedro é uma forma de fazê-lo falar e apontar as dificuldades que passam os portadores de deficiência, despertando as pessoas à ação. Há muitas maneiras de facilitar a vida dessas pessoas, ou pelo menos não dificultá-la estacionando sobre calçadas ou em vagas para pessoas especiais.

Alguém poderá chegar neste ponto e reclamar: “Pôxa! O Mario Persona saiu de seu tema que é marketing, negócios, Internet e coisa e tal!”. Ok, não fique desapontado. Minha idéia é usar a Internet para estimular o negócio de todos os negócios que é a ação social, cidadania, consciência cívica – você escolhe o nome que deseja dar. Mesmo porque se não existirem condições mínimas de saúde, segurança e inclusão social os negócios não acontecem. Pelo menos quando falamos de negócios que tenham a etiqueta “dignidade” anexada a eles. Há um artigo muito bom sobre isso chamado Marketing Social e Internet, de Luciano Augusto Toledo.

Numa época quando se fala tanto em inclusão social, é preciso entender que a primeira inclusão é aquela que é feita no coração. Como Pedro fez com o Teddy Bear-Pererê.